O cão morde o dono…
Ninguém se julgue bem seguro no que pensa, sabe, faz e, até, na atenção que presta às coisas, aos animais ou às pessoas. Estabelecemos, por vezes, relações de amizade e dependência na vida e as consequências nem sempre são as mais agradáveis. Os frequentes dissabores levam-nos a desconfiar de tudo e de todos. Isto sem pessimismos nem fatalismos; mas deveremos encarar com realismo as lições que a vida e as suas circunstâncias nos fazem experimentar. Não que andemos sempre de pé atrás, mas havemos de nos precaver para se evitarem acasos desconhecidos ou, jamais, pensados. Há quem se dedique incondicionalmente a alguém. Outros voltam todo o seu cuidado e carinho para os animais, tratando-os como se houvesse um entendimento mútuo, perfeito e acabado. n MORTE DO CÃO: Pessoalmente estimo testemunhar esses factos de doação e entrega e tolero, até, uma pontinha de exagero. Comigo a coisa não pega assim tanto. E, depois, avalio algumas consequências que me oferecem uma determinada razão, ou me fornecem motivos de desculpa para as minhas insuficiências afectivas. Passemos à frente, porque ERA UMA VEZ… um indivíduo que conduzia no seu carro um volumoso cachorro, o qual sempre lhe fora fiel e dedicado, ou não fosse ele um cão tratado com todas as deferências e amabilidades. Bastava o dono abrir a porta da viatura e logo o animal tomava a sua posição costumada, da qual não prescindia por nenhumas razões mesquinhas. O dono podia cumprir os seus afazeres que o bicho, lealmente, tomaria a peito a guarda das andanças. Mas, naquele dia, bom, naquele dia algo inquietava o canídeo, de modo a não se sentir cómodo nos assentos que ocupava no veículo. O seu dono saiu a tomar um café, deixando no automóvel uma janela aberta. O bicho quis acompanhá-lo mas, por azar, ao atravessar a estrada, na lógica habitual de cão distraído, em corrida desenfreada, colide com o trânsito, ficando estatelado no asfalto, em estertor de morte. Apercebendo-se do sinistro, corre o dono e, numa tentativa de salvamento, estende-lhe a mão. Como paga ou resposta a esta abnegação, recebe uma forte ferradela no pulso o que exigiu imediato tratamento hospitalar. Ora, aí está. O cão não reconheceu o seu próprio dono que todo se dedicava ao seu animal. Há dias atrás e, recordando-me do episódio descrito, deparei-me com uma situação que identifico de semelhante. n O COMPUTADOR: No intuito de acompanhar o desenvolvimento técnico e para não me sentir muito inferiorizado, em comparação a outros comparsas, tentei e comecei a enfronhar-me no computador, realizando alguns trabalhos com a prestimosa ajuda de uns tantos miúdos, que são mestres nessas funções. Quando parecia sentir-me com algum à vontade em pesquisar mais além, clico a abertura, carrego o meu menu de identificação e espero. Segundos decorridos, recebo (leio) a indicação de o meu computador não me reconhecer como dono. Fiquei pasmado porque tudo tinha sido correctamente feito como exigem os manuais e os garotos me ensinaram. O meu computador não me reconheceu. A mim que sempre o tratei bem. Paguei-o honestamente e sem regatear, (até posso apresentar factura e recibo que conservo); limpo-lhe sempre o pó, expurgo-o de tudo quanto diz ser supérfluo e lixo. Trato-o com a delicadeza de quem respeita aquele do qual recebe ajuda em empreendimentos importantes… Que mais exigirá ele de mim? n PARTIDA: O meu computador não me reconheceu como seu proprietário e “mordeu-me”. Só voltou a mostrar-se nas suas funções quando alguém foi segredar-lhe que não voltasse a pregar-me essa partida. ERA UMA VEZ… um cão. É hoje… um computador, suposto companheiro para o trabalho de cada dia. Mas, por minha incompetência, sinto que não estou mesmo seguro de nada e em nenhum sítio. Conduzir quem pensamos ter mais força ou saber que nós, supõe e exige o uso da inteligência e da tecnologia psicológica que, felizmente, ainda são pertença de nós que nos conhecemos como homens. Mas, quando nos deixarmos converter e convencer no inverso, estaremos bem tramados. n P. Manuel Armando
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