Crimes na ordem do dia
Um dia, acordámos no meio de um grande alvoroço: “Mataram a “G…”, de Requeixo! G…, dizia-se, era uma mulher de grandes posses, que trabalhava com ourivesaria, e desconfiava-se que, para proteger o tesouro dos meliantes da calada da noite, escondia-o em casa e isso custou-lhe caro. Não sei se lhe roubaram o ouro, mas a vida, essa tiraram-lha mesmo e de uma forma arrepiante. Ao tempo, foi um caso muito falado na região, com honras de noticiário, conversas de rua e de família e até cantado em feiras festas e romarias, por saltimbancos e propagandistas que cantavam a efeméride e tocavam o coração dos transeuntes para que estes deixassem, no chapéu, a moedita. Lembro-me do nome do acusado, que pagou na cadeia o seu irreflectido acto, mas não quero nem devo pronunciá-lo, pois ele expiou já as suas penas, com dezenas de anos de cadeia, tempo suficiente para um arrependimento que por certo já teve. Se falamos desse tão hediondo quanto horrendo crime é apenas para ilustração do que queremos desenvolver de seguida. Pelos anos 40, não raramente éramos surpreendidos com o surripiar das caixas das esmolas nas igrejas, o roubo de cruzes e cálices de ouro e prata, o desvio das obras de arte que, ao tempo, ornamentavam os Templos Sagrados. Nada escapava a uma horda de salteadores mas, com um governo forte, com leis duras e exemplarmente executadas, os marginais raramente escapavam às malhas da justiça e o castigo merecido não falhava e, passados poucos anos a limpeza estava feita e voltávamos a ter sossego. De repente, vá lá saber-se porquê, somos obrigados a colocar grades nas janelas e fechaduras de segurança nas portas, dormir com um olho fechado e o outro aberto e com a faca de matar os porcos debaixo da travesseira, não vá o diabo tecê-las. E não vale a pena fiarmo-nos muito na justiça, porque ela está ao serviço dos governos e não tem tempo para cuidar dos problemas do cidadão comum. Vem isto a propósito de, nos dias que correm, não sentirmos segurança nem uma justiça que proteja as pessoas de bem. Os fazedores de leis preocupam-se demasiado com os direitos humanos dos criminosos e esquecem por completo os direitos das suas vítimas. Aos apanhados com armas, munições, equipamento para executar os mais perigosos e mortíferos atentados, o juiz diz: “Vai-te embora em liberdade, não saias da tua área de residência”. E retiram-lhe o passaporte, para que não saia do País. E o marginal, muito educadinho e bem comportado, vai cumprir à risca as ordens que recebe. Isto só de anormais! É pena que as próximas vítimas, em vez dos inocentes do costume, não sejam os autores do código penal responsáveis pelo estado de coisas em que o País está mergulhado.
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