O nariz de Cleópatra (Fim)
(Cont. última edição) (...) Outros, porém, eram os tempos e, quem sabe, mesmo as vontades. Salazar temeu que podia entrar em delírio e desceu do sonho à realidade. Quem sabe se retirar da Índia não poderá representar afinal uma opção patriótica tão valiosa quanto a decisão de ficar. Se a perda do Império se apresentava como uma fatalidade irreversível ,porque não procurar perdê-lo da melhor maneira? Passam já das quatro horas da madrugada. Salazar tem a decisão tomada. Senta-se à secretária e minuta a declaração solene que vai ler aos microfones da Emissora Nacional, no dealbar desse dia. Depois do que resolvera dizer, nada viria a ser como antes.
“Portugueses: São pouco animadoras as notícias que nos chegam da Índia, notícias que me sinto no mais estrito dever de vos transmitir. Contra todas as expectativas e promessas da parte do primeiro-ministro da União Indiana, os territórios portugueses de Goa, Damão e Dio estão a ser invadidos pelo exército indiano. Ao contrário do que inicialmente chegou a parecer como melhor solução, o Governo português, ouvido o Chefe do Estado e os principais comandantes militares, tomou a decisão de não oferecer resistência, propondo a imediata abertura de negociações, no sentido de serem estudadas as melhores vias para a transferência de soberania dos territórios, até agora na posse de Portugal, para a União Indiana. Os portugueses que tão bem me conhecem avaliarão perfeitamente o que para mim representa a decisão que acaba de vos ser comunicada. Mas a resistência militar, nas presentes condições, não seria mais do que um inútil massacre. Estou, aliás, convencido de que a presença de Portugal no Industão, bem como nos demais territórios que descobrimos, aportuguesámos e desbravámos, poderá ser melhor preservada negociando a nossa partida do que opondo-nos pela força a uma saída que acabaria por se tornar inevitável. Hoje mais do que nunca todos seremos poucos para salvar Portugal».
Os portugueses tomaram conhecimento da declaração do Doutor Oliveira Salazar como se não acreditassem no que tinham ouvido. Então, nós vamos entregar o Império de mão beijada e ainda por cima sob a liderança do único dirigente que parecia capaz de nos defender?! Perguntava o homem da rua. n PÂNICO: Logo começou a movimentar-se a fina-flor da direita ultra conservadora. E não tardaria que os cabecilhas, liderados pelo general Kaúlza de Arriaga (no que tocava aos militares) e Franco Nogueira (no que respeitava aos civis) procurassem o Almirante Tomás, fazendo-se eco da alteração radical que o presidente do Conselho pretendia dar à política externa e ultramarina do país. Américo Tomás ficou em pânico. Não lhe bastava a recente intentona chefiada pelo ministro da Defesa Botelho Moniz, intentona que por pouco não levara de vencida os seus intuitos revolucionários, e aparecia agora o próprio Salazar com a ideia peregrina de negociar a independência dos territórios ultramarinos!... Era demais. * POLÍTICA: Chamado a Belém, Oliveira Salazar procurou explicar ao vetusto e medíocre almirante as razões que o tinham levado a mudar de opinião, confessando ao Chefe do Estado a impossibilidade de desenvolvermos uma política externa que nenhum país aceitaria, com a bem pouco lisonjeira excepção da África do Sul. Foi longa e tensa a conversa entre os dois. Mas, por maior desejo que ambos manifestassem de se entender, foi-lhes impossível chegar a consenso. Para Tomás, o Ultramar tinha de continuar a ser Portugal, custasse o que custasse, doesse a quem doesse. E Salazar entregou, ao sair de Belém, a sua carta de demissão. Demissão que o almirante pediu para voltar a ser ponderada no dia seguinte. A decisão foi mantida. Salazar não quis mesmo continuar. E seguiu para Santa Comba. n DECISÕES: O pedido de demissão de Salazar provocou estilhaços políticos ,proporcionalmente idênticos aqueles que uma bomba atómica seria capaz de fazer. E tanto a esquerda como a direita procuraram não perder a ocasião e o ensejo para alterar um estado de coisas que parecia eternizar-se. Na realidade, o país encontrava-se numa situação insustentável. Urgia tomar decisões. Foi então que se constituiu uma junta de militares de alta patente destinada a assumir o poder. Junta essa composta pelo marechal Craveiro Lopes, presidente, além de Júlio Botelho Moniz, Joaquim Luz Cunha, Kaúlza de Arriaga e outros mais. Reunida no palácio de Belém pelas 9 da manhã de 26, sob a presidência de Craveiro Lopes, a Junta ocupou-se primacialmente dos seguintes pontos: A -Nomeação do Primeiro-Ministro. B - Mensagens de conciliação a todos os dirigentes dos movimentos de libertação (alguns ainda sem actividade militar). C - Proclamação solene do direito à auto-determinação dos territórios colonizados. D - Propostas para celebração da paz ,sem vencedores nem vencidos. E - Protecção de pessoas e bens. F - Fim da censura à imprensa. H - Nomeação da Comissão Especial (chefiada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros), mandatada especificamente par negociar com os Movimentos de Libertação.
A notícia do “golpe de Estado” ocorrido em Portugal e liderado pelo próprio Chefe do Governo, foi recebida em todo o mundo com um misto de estupefacção e incredibilidade. Seria lá possível que o mais retrógrado, o mais conservador dos líderes políticos, desse ao mundo o exemplo de aceitar e reconhecer que se iniciava uma nova era nas relações internacionais, entregando de mão beijada as colónias às populações autóctones, respeitando o desejo de emancipação que consideravam merecer? n NOVOS BRASIS: Muitos foram os que não acreditaram. Alguns mesmo os que tentaram revoltar-se. Mas os Ventos da História revelavam-se insubmissos. O caminho que encetáramos era irreversível… Nós íamos criar novos BRASIS… Ao tomar a liderança da descolonização, Salazar tomava também a liderança da História. Se outrora fôramos os pioneiros, dando novos mundos ao mundo, agora voltávamos a dar o exemplo, sendo também dos primeiros a reconhecer que deveríamos partir. E quanto mais depressa, tanto melhor. Pela comezinha razão de que partindo, continuaríamos; ao invés de que, se teimássemos em ficar, acabaríamos por ser obrigados a partir.
Tamanho o ódio foi e a má vontade Que a tantos de súbito tomou (Sabendo ser sequazes da verdade Que o filho de David nos ensinou) Que nunca falte um pérfido inimigo Àqueles de quem foste tão amigo. Então julgareis qual será mais excelente, Se ser do mundo Rei, se de tal gente.
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