Reconhecer os erros
Não pensava voltar tão cedo a ocupar-me da matéria tantas foram já as vezes que abordei e desenvolvi o assunto. Mas a verdade é que dificilmente resisto sempre que a ocasião o propicia. Coincidente com as notícias cada dia mais preocupantes que chegam do Afeganistão onde tudo indica que os norte-americanos acabarão por não conseguir evitar revés semelhante ao que suportaram no Vietenan, coincidente com essas notícias, chegou-me às mãos o DVD relativo à intervenção do secretário estaduniense da Defesa Robert Mc Nammara, que assumiu, por delegação, primeiro do presidente Kennedy e, depois, de Lyndon Jhonson, a condução e execução das operações militares no sudeste asiático destinadas a evitar a expansão do comunismo naquela região. O DVD a que faço referência é um trabalho notável que obteve os mais altos galardões cinematográficos ao mesmo tempo que evidencia com objectividade e rigor o que foi o calvário das forças norte-americanas naquelas paragens. Mas mais do que isso - que já seria muito - o filme contem o mea culpa inequívoco de Mc Nammara, por não ter convencido os dois presidentes com os quais trabalhou a retirar, antes que fosse demasiado tarde, o contingente militar expedicionário. O reconhecimento dos erros cometidos, a humildade e a coragem que patenteia, constitui um nobre gesto que merece ser louvado e evidenciado como exemplo que deveria ter sido seguido por outras tentativas de manter “manu militare” a colonização ocidental em diversos pontos do globo. Todos sabemos que errar é humano. Mas humano também é reconhecer que se errou. Mc Namara, considerado como um dos mais inteligentes e competentes da sua geração, veio a público confessar que se enganara ao articular a intervenção militar no Vietenan. Quando chegou à conclusão de que não lhe seria possível ganhar a guerra, tentou convencer os presidentes da necessidade imperiosa de encontrar uma saída política e uma retirada honrosa. Não tendo podido ou sabido convencer quem estava em condições de tomar a decisão final, deveria apresentar a demissão explicando as razões que julgava assistirem-lhe. Essa coragem não teve. Acabou por ser demitido. Entre nós aconteceu o que se sabe. Perdemos a guerra e nunca confessamos os erros que cometemos... Ainda hoje os responsáveis pela política ultramarina da época ainda vivos não conseguem reconhecer que erraram estrondosa e dramaticamente. Tendo sido os primeiros a chegar a África, à Índia, à Oceania, bem poderíamos não ter sido os últimos a partir. Sobretudo a partir como partimos, salpicando a memória dos que outrora honraram a nossa História glorificando Portugal.
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