O nariz de Cleópatra
A exemplo do que acontece com muita gente, de quando em vez também sou assaltado pelos «ses» da História, sendo entre eles o mais conhecido e citado “o nariz de Cleópatra”. Trata-se de meras conjecturas, na medida em que os factos que ocorreram não podem obviamente ser alterados, nem sequer temos a possibilidade de saber que rumo teriam levado os acontecimentos, se a realidade fosse diversa da que se verificou. Ou seja: se o nariz da raínha do Egipto acaso fosse menos adunco do que efectivamente era. Dou de barato que a generalidade dos leitores conhece a historieta que se conta a respeito do tamanho do nariz de Cleópatra e da rivalidade desencadeada, a propósito, entre César e Marco Aurélio, nos longínquos confins da História. Seja, porém, como for, nem sempre conseguimos resistir à tentação de percorrermos o passado, apoiando-nos em factos hipotéticos de modo a “calcularmos” o que, nesses casos, teria sido a sucessão dos acontecimentos. Ao percorrer uma das estantes da biblioteca, em busca de determinado livro que desejava consultar, encontrei casualmente um trabalho, publicado em 1988, da autoria de um escritor francês, obra essa que lera há bastante tempo e que acabei por compulsar. Refiro-me a «Munich», do coronel Pierre Le Goyet, livro esse que se baseia precisamente na sucessão alterada dos acontecimentos ocorridos antes da última Grande Guerra Mundial começar . Segundo a tese defendida pelo autor, a capitulação francesa e britânica, em Munich constituiu um erro fulcral de que terá resultado a perda de milhões de vidas. Invocando W. Churchill, «tínhamos que escolher entre a desonra e a guerra; escolhemos a desonra e não evitámos a guerra!». Le Goyet assume a convicção de que, antes de Munich, a Alemanha nazi não estava preparada para fazer frente aos Aliados. A guerra seria diferente. Tudo seria diferente. Do mesmo modo tudo teria sido diferente se, por exemplo, após a invasão de Goa pela União Indiana, Salazar se tivesse retirado (como esteve para acontecer) ou se decidisse preparar a independência do Ultramar por iniciativa e sob a égide do colonizador. O epílogo do ciclo imperial teria sido totalmente diferente. Em vez de termos partido sem honra nem glória, teríamos criado novos «Brasis» e evitado o êxodo dos colonos que consideravam os territórios como segunda pátria. Enfim. Mil e um exemplos poderíamos dar. Mas agora é demasiado tarde. Não vale a pena chorar sobre o leite derramado. É que nada seria como foi, ou como está sendo, se diferente tivesse sido o nariz de Cleópatra. n MJHM Director Honorário de SP
APOSTILA: A crónica desta semana antecede aquela na qual procurarei fazer um exercício arriscado mas nem por isso mesmo menos interessante. Procurarei fazer uma espécie de reconstituição histórica, fazendo de conta que os acontecimentos se processaram de modo diverso daquele que ocorreram. Sei que correrei o risco de ser “profeta do passado”. Mas atendendo a que previ o que exactamente sucedeu, assumi a coragem de tornar verdadeiro o que, afinal, não passou de mero desejo de que tivesse acontecido.
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