À beira do precipício…
Marcello Caetano, acompanhado pela filha Ana Maria, jantara em minha casa, no Estoril, salvo erro no sábado que antecederia a Revolução. Com o Chefe do Governo também Albino dos Reis, Manuel Cotta Dias, César Moreira Baptista, Baltazar Rebelo de Sousa e mais algumas figuras gradas do regime. Decorridas, entretanto, quase três décadas é natural que já me escapem alguns pormenores do que nessa reunião se passou. Mas jamais pude (nem poderei esquecer, a visível angústia evidenciada pelo Chefe do Governo, angústia prenunciadora do desencadear da tempestade que se aproximava celeremente. n COMUNISTAS: A nenhum dos presentes escapou o estado de espírito que Marcello Caetano nem sequer procurara disfarçar. Era a imagem inequívoca de um homem derrotado, mesmo antes do combate começar. “Aos comunistas não entregarei o poder. Se a tropa o quiser, que assuma as suas responsabilidades”, terá dito, pouco antes de se de retirar. Para ele, “os militares“ eram os generais. Os subalternos não contavam. Nenhum dos presentes deixou de ficar contagiado pela imagem de impotência política transmitida pelo Chefe do Governo. Conciliei-me com o sono, nessa noite, com natural dificuldade. E no dia seguinte, domingo, não resisti a telefonar ao ministro do Interior, César Moreira Baptista, dando-lhe conta da minha preocupação, alimentada ainda mais pelas notícias alarmantes que, durante o resto do fim de semana, até mim tinham continuado a chegar . n PIDE/DGS: Moreira Baptista - de quem guardo simpática lembrança e cuja amizade me apraz enaltecer, mau grado os desacordos entre nós, nem sempre superados - Moreira Baptista ouviu o meu desabafo e perguntou-me se eu não quereria passar por sua casa, em Cascais, para tomar um café, depois do jantar. Obviamente que logo disse que sim. E fui. César Moreira Baptista recebeu-me como de costume. Traje informal, ainda mais aligeirado, por ser fim de semana. E o eterno cigarro ao canto da boca. “ Oh homem, então você teme que haja um golpe de Estado? Deixe-se disso. Estamos de pedra e cal. Nem o Spínola nem o Costa Gomes chegarão «lá». Tenho informações da DGS de que está tudo sob controle. O Silva Pais ainda há pouco me telefonou, assegurando-me que não há nenhum movimento suspeito a assinalar …”. Torci o nariz, denotando a incredibilidade que me acompanhava. A certeza de que o regime, velho e alquebrado, se aproximava do fim, tornara-se uma evidência. A derradeira réstia de esperança fenecera a partir da decisão de reconduzir Américo Tomás na chefia do Estado. A mediocridade bem intencionada do velho Almirante impediria qualquer evolução política, sobretudo relativamente ao Ultra--mar. n GOVERNO: Tomás viria a ser um novo Velho do Restelo, incapaz de compreender e aceitar a irreversibilidade do ciclo colonial. Bem merecerá ser condenado às galés da História. “Você é um chato”, disse-me Baptista, ao despedir-se. ”Se não fosse o livro que o Manuel José escreveu com o prefácio do Craveiro e “o Marcello convenceria o Almirante a aceitar a sua entrada no Governo. Mas assim parece -me impossível…”. Felizmente. Sei agora que Marcello Caetano chegou a propor a minha nomeação para ministro da Informação, rejeitada liminarmente pelo hóspede de Belém. Mas a notícia da minha entrada para o Governo continuava a ser veiculada, inclusive além fronteiras, por alguns órgãos de comunicação, escassos dia antes da Revolução eclodir.. O boato manter-se-ia durante alguns dias, chegando ao ponto de ter recebido um telefonema de Caetano de Carvalho, Sub-Secretário de Estado do sector, que me dizia sentir-se feliz por poder trabalhar comigo. Devido ao veto do Almirante, Marcello Caetano colocou Pedro Pinto como secretário de Estado da Informação, “livrando-me de boa“ (ou seja, de muito má…). n REGIME: A 30 anos de distância interrogo-me sobre a resposta que teria dado, se o convite tivesse chegado a ser formulado. Temo que a miserável atracção do e pelo poder me tivesse levado a dizer que sim. Obrigado, Américo Tomás!... 48 horas depois da minha conversa com o ministro do Interior, assegurando-me da tranquilidade que reinava de norte a sul do país, o ignoto capitão Salgueiro Maia, acompanhado por meia dúzia de soldados mal treinados e praticamente desarmados, punha termo ao regime que dominara Portugal ao longo de 40 anos, sem que um só tiro fosse disparado. A PIDE/DGS revelara-se, afinal, um tigre de papel. E nem sequer cumpriu a missão de informar os governantes do que estava em preparação. - MJHM Director Honorário SP
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