Acordai… acordai… acordai
A 16 de Junho de 2006, escrevíamos assim: “Futebol, fascínio ou alienação?” Passados dois anos, vemos, de novo, o país com a mesma histeria futebolística: Não lembra mais a crise económica, nem social, nem familiar! As televisões, as rádios e os jornais elegeram o futebol como a única coisa importante deste país e não há comunicação que fuja a esta onda, que virou loucura. É claro que todos gostaríamos de ser os melhores, ao menos no futebol, já que no resto, somos o que se sabe. Mas passarem-se os dias a pensar só de futebol e, à mais pequena oportunidade, interromperem-se as emissões, por mais importantes que elas sejam, e pela nonagésima vez, vermos o avião que transportou os craques da bola, desde o rolar na pista até levantar voo e com as objectivas apontadas até perder de vista, é demais para um país atolado em problemas sociais. E como se isto fosse ainda pouco, no ponto de chegada está, há horas ou dias, um batalhão de jornalistas e repórteres de imagem a espiolharem todos os passos da comitiva: se o Ricardo gosta mais de açorda ou de tripas à moda do Porto, se o Nuno Gomes dorme com ou sem pijama, se o Ronaldo gosta mais das louras ou das morenas! Este país está a virar um manicómio! Lembrarmo-nos nós do tempo em que as oposições ao regime faziam catequese com a teoria dos três F's (Fátima, Fado e Futebol), dizendo que eram estes os argumentos do ditador para nos entreter O que era isso comparado com o que hoje se faz? Hoje, distrai-se o povo com os mesmos F's, conquistam-se os votos pelos mesmos sistemas, promete-se o paraíso com a mesma desfaçatez, para se dar o inferno com o mesmo despotismo. Não é crime gostar de futebol, mas o uso e abuso das antenas e as perguntas estúpidas feitas aos jogadores, e não só, atira este povo, que já foi de heróis, para a mediocridade - ainda que tentem fazer-nos crer que estamos a viver no país das maravilhas: - Só pode ser ficção! Quando uma Nação (será que ainda o somos?) se preocupa mais em saber se o ídolo da bola vai para um clube Real ou Republicano e esquece a fome que campeia portas adentro, é já um povo em decadência moral e a entrar em letargia profunda. Oxalá o pesadelo acabe depressa para, depressa, passarmos do sonho à realidade! Nós somos tão patriotas como os demais e gostaríamos, tanto como os demais, de ser campeões. Mas duvidamos é se esta histeria à volta da selecção é patriotismo ou apenas a defesa de interesses económicos de uns poucos e uma lavagem ao cérebro de muitos, para nos abstrair da dura realidade que o país atravessa. O futebol está a funcionar como uma droga ou, no mínimo, como uma tremenda bebedeira que entorpece os sentidos, ao ponto de nos não deixar ver que a via alada de cravos e rosas que nos mostram nos vai conduzindo ao abismo. A humanidade de hoje vive um paradoxo. Ela própria é esse paradoxo, só comparável à Roma antiga, que levava ao circo um povo faminto e cheio de maus-tratos e divertia uns, com o massacre dos outros. E os sobreviventes daquele dia, elegiam como ídolos os seus próprios carrascos do dia seguinte! O que se passa hoje é diferente na forma, mas semelhante no conteúdo! Esquecemos as agruras por que passamos e embarcamos nesta onda de loucura, como uma turba de alienados a apoiar, até ao exagero, uns quantos habilidosos da bola e as bafejadas mordomias que vivem ao mais alto nível, com milhões, enquanto o povo vive rastejando, por tostões. Apetece-me gritar: Acordai..., acordai..., Acordai!!! n a.a.silva 2008-06-11
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