CLUBE DA VENDA NOVA: Nunca viram um rei em cima de um cavalo?
O Zé do Candeeiro andava tão incomodado que até se enganou no troco e levou dez cêntimos a mais a uma freguesa! Foi ao lado ter com o Estimado dos Papéis e deu-lhe conta da sua preocupação: -” Já viu, ó Estimado, que o Joaquim da Trigal e o Vitorioso da Burgiva mandaram pôr à frente das lojas deles um cavalo de pau e uma máquina fotográfica do tempo em que fotografia ainda se escrevia com “ph”!?” O Estimado assomou à porta e disse: - “Aquilo é uma máquina de tirar fotografias à la minute, das feiras, vai atrair muita freguesia àquele lado, são espertos! Ainda vão começar a vender lá arroz e almanaques…” - “Temos que resolver isto - respondeu o do Candeeiro, saindo rua abaixo - se não vamos ter muito prejuízo”. Passaram-se algumas horas, o tempo era de sol intenso. Ao meio da tarde, surgiu o Zé do Candeeiro, com ar triunfante e desafiador, a puxar a arreata de um belo cavalo lusitano que prendeu a uma palmeira da avenida, em frente à loja dele. A mulher veio à porta curiosa e surpreendida, de olhos esbugalhados: - Vês, o que é preciso é imaginação, não nos podemos deixar ultrapassar - esclareceu o Zé, com um sorriso de regozijo - fui alugar este cavalo ao Custódio da Borralha e pedi uma máquina fotográfica moderna ao Rui da Foto Beira Rio, que tira fotografias de todas as cores de pé, sentado, de cócoras… - “Então, o que é que vais fazer com isso?” - “Tenho a certeza que vou tirar a clientela toda aos vizinhos” - respondeu o Zé - toda a gente prefere ser fotografado em cima de um cavalo a sério, ainda por cima no meio das palmeiras, do que em cima de um cavaleco de pau!” A Luísa do Mel, que tinha acabado de fazer as compras, disse a meia voz: - “Para as palmeiras, em vez do cavalo devia ser um camelo…” - “Um camelo!? Andei à procura e vi muitos, mas nenhum quis vir - ironizou o Zé do Candeeiro - mas um camelo também não dava, porque quero levar este aparato para o S. Geraldo, vou lá fazer um dinheirão”. Entretanto, foram chegando políticos para tirarem fotografias em cima do cavalo. O Gil Pedalais foi dos primeiros a subir e disse com alguma apreensão, tentando endireitar-se e fazer uma pose adequada: - “Este cavalo é muito alto, se ele ginga ainda caio, tire a fotografia depressa!”… O Figueira Parado, que também estava à espera, com fato do costureiro Arsénio Taylor, gravata Hermes e sapatos Timberlan, encolheu os ombros e foi em direcção ao cavalito de pau. - “À cautela vou tirar o retrato naquela máquina, daquele cavalo eu não caio e não gosto de ostentações. Nesta fotografia, vai ficar a impressão da minha modernidade e do meu conservadorismo. O povo vai conhecer a minha personalidade multifacetada, que dá para conviver com os simples e com os outros!” O Gil Pedalais, a tremer em cima do cavalo do Custódio, dizia titubeante: - “Pois sim, mas eu prefiro este cavalo, porque personifica melhor o poder. Vocês nunca viram um rei em cima de um cavalo”.
Tirou o Gil Pedalais Uma foto imponente Num cavalo lusitano Com uma linda malha à frente
E digo por minha fé, E olhem que não me engano Essa justiça lhe faço: Parecia o Rei D. José No Terrreiro do Paço!
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