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CLUBE DA VENDA NOVA: Nunca viram um rei em cima de um cavalo?

por Redacção Soberania em Maio 14,2008

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O Zé do Candeeiro andava tão incomodado que até se enganou no troco e levou dez cêntimos a mais a uma freguesa! Foi ao lado ter com o Estimado dos Papéis e deu-lhe conta da sua preocupação:
 -” Já viu, ó Estimado, que o Joaquim da Trigal e o Vitorioso da Burgiva mandaram pôr à frente das lojas deles um cavalo de pau e uma máquina fotográfica do tempo em que fotografia ainda se escrevia com “ph”!?”
O Estimado assomou à porta e disse:
 - “Aquilo é uma máquina de tirar fotografias à la minute, das feiras, vai atrair muita freguesia àquele lado, são espertos! Ainda vão começar a vender lá arroz e almanaques…”
- “Temos que resolver isto -  respondeu o do Candeeiro, saindo rua abaixo  - se não vamos ter muito prejuízo”.
Passaram-se algumas horas, o tempo era de sol intenso. Ao meio da tarde, surgiu o Zé do Candeeiro, com ar triunfante e desafiador, a puxar a arreata de um belo cavalo  lusitano que prendeu a uma palmeira da avenida, em frente à loja dele.
A mulher veio à porta curiosa e surpreendida, de olhos esbugalhados:
- Vês, o que é preciso é imaginação, não nos podemos deixar ultrapassar - esclareceu o Zé, com um sorriso de regozijo - fui alugar este cavalo ao Custódio da Borralha e pedi uma máquina fotográfica moderna ao Rui da Foto Beira Rio, que tira fotografias de todas as cores de pé, sentado, de cócoras…
- “Então, o que é que vais fazer com isso?”
- “Tenho a certeza que vou tirar a clientela toda aos vizinhos” - respondeu o Zé - toda a gente prefere ser fotografado em cima de um cavalo a sério, ainda por cima no meio das palmeiras, do que em cima de um cavaleco de pau!”
A Luísa do Mel, que tinha acabado de fazer as compras, disse a meia voz:
- “Para as palmeiras, em vez do cavalo devia ser um camelo…”
- “Um camelo!? Andei à procura e vi muitos, mas nenhum quis vir - ironizou o Zé do Candeeiro - mas um camelo também não dava, porque quero levar este aparato para o S. Geraldo, vou lá fazer um dinheirão”.
Entretanto, foram chegando políticos para tirarem fotografias em cima do cavalo. O Gil Pedalais foi dos primeiros a subir e disse com alguma apreensão, tentando endireitar-se e fazer uma pose adequada:
- “Este cavalo é muito alto, se ele ginga ainda caio, tire a fotografia depressa!”…
O Figueira Parado, que também estava à espera, com fato do costureiro Arsénio Taylor, gravata Hermes e sapatos Timberlan, encolheu os ombros e foi em direcção ao cavalito de pau.
- “À cautela vou tirar o retrato naquela máquina, daquele cavalo eu não caio e não gosto de ostentações. Nesta fotografia, vai ficar a impressão da minha modernidade e do meu conservadorismo. O povo vai conhecer a minha personalidade multifacetada, que dá para conviver com os simples e com os outros!”
O Gil Pedalais, a tremer em cima do cavalo do Custódio, dizia titubeante:
- “Pois sim, mas eu prefiro este cavalo, porque personifica melhor o poder. Vocês nunca viram um rei em cima de um cavalo”.

Tirou o Gil Pedalais
Uma foto imponente
Num cavalo lusitano
Com uma linda malha à frente

E digo por minha fé,
E olhem que não me engano
Essa justiça lhe faço:
Parecia o Rei D. José
No Terrreiro do Paço!


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