Isto não passa de propaganda eleitoral
Vêm os políticos do poder aos órgãos de comunicação social, como contadores de desgraças dos outros, afirmar a indigência a que chegou o país, com a tanga a cair, já rota. Mas o Clube da Venda Nova não para, as obras evoluem nas ruas e praças e foi inaugurada a biblioteca com o nome do Poeta Alegre. Do rescaldo dos discursos e recitações, juntaram-se grupos em falatório e crítica habitual: “Isto não passa de propaganda eleitoral - dizia o Hilariante Santos – mas sempre traz algum prestígio a Águeda, que bem precisa que falem dela, agora que nem cheias há!”. “Isto já estava mau para nós, agora ainda vai ficar pior”, disse, entristecido, o Fernando Rinodente. “Até aqui ainda vendia um livrito de vez em quando, agora se vêm ler para aqui...”. “E a verdade é que se não estamos falidos, estamos tecnicamente falidos”, acrescentou, apreensivo, o Gil Abredepois, da Associação de Secos e Molhados: “Já tínhamos as grandes superfícies e agora veio a biblioteca para acabar com o resto”. “Não é só pelos livros que vão ler, até podem vir com intenção de ir às compras, mas metem-se ali já não compram nada”, comentou o Zé do Candeeiro. “A mim não me apanham lá!”. “Mas há muito a fazer em Águeda”, atalhou o Celestino de Almada: “Os livros são necessários ao espírito, deles podem sair ideias, recomendações, iniciativas e muita inovação”. “Tem razão – continuou o Castilho das Pompas Fúnebres – atente-se, por exemplo, na imaginação e criatividade do Joaquim da Trigal, que transformou os sabores do leitão que estávamos habituados a comer assado em varas, em pasteis a lembrar barcas e bolas... bem mereceu o prémio que esta Associação de Secos e Molhados lhe atribuiu”. O Acácio Queirós do Vale, que estava por ali adiantou: “Também acho que mereço um prémio, transformei a barbearia com a cadeira e as alfaias do tempo do meu pai num cabeleireiro moderno e bem apetrechado. Tenho agora uma cadeira de dentista, de subir e descer, com tubagem moderna de onde sai creme da barba, after-shave restaurador olex, tintas de várias cores para cabelo, tesouras para os diversos tipos de corte, à garçonne, à pank, rabo de cavalo, etc..”. “Apoiado – disse com entusiasmo o Alberto Marquês – e os cafés deviam ser robotizados, tudo devia ser servido automaticamente. No mercado deviam fazer arranjos apelativos com as couves, as cenouras e as batatas, como se fossem arranjos florais, tudo monitorizado por computador. E nas boutiques e lojas de confecções, podiam pôr manequins vivos interactivos a vestir e a despir as colecções, para se ver o efeito”. O Lino Lebre que estava ensimesmado a ouvir, concluiu com ar grave: “Também já pensei em utilizar essas tecnologias na minha loja mas verifiquei que os meios cibernéticos são muito caros e avariam muito, mais vale continuar como estava”.
*** * *** O jantar de gourmets era de caça e o menu dos deuses. As iguarias foram chegando aos olhos ávidos e sôfregos dos comensais. Primeiro trutas das cataratas de Agadão. Depois um tabuleiro de barro de Molelos com uma dúzia de galinholas com molho grosso, paté de foie de scolopax rusticola, de aspecto e sabor indescritíveis. Foi-se comendo vagarosamente (slow food) e com alguma voracidade e cautela, não se fosse trincar algum chumbo número cinco com que foram abatidas pelo anfitrião João Paulo Cordeiro Velho. A certa altura o Rolim Stones olhou para o lado, de soslaio, e disse entre dentes para o Dr. Paulo Assucena: “- Desculpe lá, ó doutor, mas eu só comi ainda uma galinhola e meia e você já comeu quatro!”. “Para já – retrucou o Dr. Paulo Assucena – é deselegante e até má educação estar a olhar para o prato dos outros e ainda por cima a fazer reparos. Depois, tenho a dizer-lhe que estas especialidades devem ser comidas atendendo à permilagem, ou seja, você com esse peso, essa altura e essa barriga só devia comer, no máximo, uma. Se já vai em uma e meia, já comeu demais!”. “- Bem, tem razão, não tinha pensado nisso!...”.
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