ÁGUEDA: QUAL SERÁ O DESTINO DA NOSSA CIDADE
Águeda, já no passado século, começou a ser conhecida pelas indústrias de ferragens e muito especialmente pela de “duas rodas”.
A Escola Comercial e Industrial teve fama que extravasou as nossas fronteiras. Os alunos vinham de todo o lado, a pé, de bicicleta ou no Vouguinha. Vinham de Albergaria e de Oliveira e Anadia. A Escola Central de Sargentos era reconhecida em todo o país e os oficiais aqui formados eram grandes embaixadores da terra. A então vila de Águeda, era cantada pelos poetas e tinha um rio de águas límpidas, que até tem o seu nome. Era cortada pela mais importante via rodoviária do país, a EN1. Aqui tinhas uma das mais importantes indústrias de camionagem nacional, que, exclusivamente, tinha o transporte de passageiros entre o Porto e Leiria, com ligação a Lisboa. Foi assim que eu conheci Águeda. Bonita, limpa, com um mercado tradicional e boas lojas para a altura e onde vinham todos os moradores locais e dos concelhos vizinhos. Era ao domingo, ali junto ao Cais das Laranjeiras. A urbe cresceu, muito especialmente a partir de meados dos anos 60. Onde eram as quintas de S. Pedro, passou tudo a ser urbano o centro da cidade. A própria Câmara, mudou-se para cima. O tempo correu e a então vila passou a cidade. Hoje, o que é que temos? Uma cidade, com uma baixa, ou seja a antiga vila, em ruínas quase total. A maioria dos prédios estão em tal estado de degradação que muito dificilmente serão recuperados e não atraem ninguém a investir. O comércio, muito especialmente naquele local, está pelas “pelas horas da amargura”. Estabelecimentos centenários fecham as portas. Os acessos à cidade, são difíceis, muito especialmente os vindos de sul. Já ninguém passa por Águeda. Aqui, já só vem quem precise de aqui se deslocar. Como não somos uma região de grande turismo, os visitantes são escassos. Há ruas onde praticamente não reside ninguém. Hoje, a grande maioria dos habitantes de Águeda-cidade, tanto na baixa histórica, bem como no chamado “centro”, são idosos. A pomposa Avenida Dr. Eugénio Ribeiro (300 metros), talvez a rua mais frequentada da cidade, não tem nenhuma criança que ali more. Calcorreei grande parte da cidade, nos Censos 2001 e, portanto, sei do que estou a falar, e daí para cá, as coisas ainda pioraram. Hoje, 30 de Março, devido ao adiantamento da hora, saí de casa, pouco passava das 10 da manhã. Tudo deserto. Entrei num dos cafés mais emblemáticos. Ia a sair uma família, minha conhecida. Lá dentro, estavas três mesas ocupadas, cada uma com uma pessoa. Em frente, os outros dois cafés abertos, estavam ainda pior. Fui para a Baixa, dar o meu giro matinal. Andei pelo Botaréu, fui até ao Cais das Laranjeiras e regressei pela Rua Luís de Camões. Não vi mais do que meia dúzia de pessoas. Nos cafés da área, também pouca gente havia. Uma hora depois, ao regressar a casa, passando defronte do café, estava um dos sócios e o empregado ao alto com a porta. Mas onde é que anda a gente de Águeda? Há “30 anos”, Aveiro, capital do distrito, era muito pouco diferente em importância, relativamente a Águeda. Hoje, há uma diferença abismal. Como não temos zonas industriais, as fábricas estão fora da cidade e não são fáceis os seus acessos. Águeda deixou de ter ligações ferroviárias para mercadorias e o falado “metro de superfície”, virá numa manhã de nevoeiro, como D. Sebastião. Sendo o concelho vizinho do de Aveiro, temos que ir aos de Albergaria--a-Velha ou Oliveira do Bairro, para lá chegarmos com alguma rapidez, pois a antiga estrada pela Ponte da Rata, é mesmo do tempo dos Afonsinhos. Ligação ao Porto de Aveiro, ou à auto-estrada, isso não será fácil, pois Águeda não tem de há décadas, talvez há um século, ninguém com poder, perante o Governo Central. Não o teve no tempo do Estado Novo, nem tão pouco após o 25 de Abril de 1974. Águeda, ficou atrasada no tempo e a viver de recordações. Temos muitas agremiações culturais, algumas mesmo muito boas, que ainda levam o nome de Águeda a muitos lados dentro e fora do país. Mas isso só não chega. As televisões só vêm a Águeda, quando há cheias ou alguma desgraça, pois “Águeda deixou de estar no mapa”. Águeda, sempre teve na capital do país, homens em lugares de relevo, dentro e fora do Estado. Nunca por Águeda, fizeram coisa alguma. Tudo vai acabando em Águeda. O povo deixou de beber tinto e passou para a cerveja. Nas veias dos aguedenses já não deverá correr sangue, mas, sim, uma água-pé e fraca, pois tudo já deixam fazer e não “berram” (desculpem o termo) como os povos de tantos concelhos, reivindicando os seus direitos e anseios. Água mole em pedra dura, tanto bate, que até fura. É um aforismo, mas tem resultado. E mais não digo. - HUMBERTO ALMEIDA
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