O REGICÍDIO E A ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA
Embora tenha prometido, no número anterior da SP, tecer algumas considerações sobre os dois livros recentemente publicados pelo aguedense Paulo Sucena, vou faltar ao prometido, deixando para outra oportunidade o tratamento do tema. É que, entretanto, outros valores mais altos se levantaram… No passado dia dois de Fevereiro, completou-se um século desde o regicídio de D. Carlos de Bragança, rei de Portugal. O deputado PSD Nuno da Câmara Pereira, que assume o seu monarquismo na Assembleia da República, muito embora recuse a legitimidade de D. Duarte Pio como pretendente ao trono, propôs que o Parlamento aprovasse um voto de pesar pelo assassinato do rei, vítima da conspiração urdida pela carbonária, sendo o algoz - executor um tal de Buíça, por sua vez passado pelas armas no mesmo local (Terreiro do Paço), a escassa distância dos membros da família real vítimas do atentado. Ainda que não me possa considerar homem de convicções monárquicas, pese embora o berço em que nasci e o título nobiliárquico que o rei D. Carlos concedeu a meu pai, a verdade é que a recusa, por parte da Assembleia, de dar seguimento à iniciativa do deputado Câmara Pereira, indignou-me profundamente. Mesmo que o monarca assassinado não tenha sido o “grande rei” que alguns consideram - e eu alinho nessas reticências, quanto mais não seja através do respectivo currículo, do qual não se extraem, efectivamente, quaisquer rasgos ou feitos dignos de realce - mesmo que seja assim, a recusa do voto de pesar pelo assassinato representa um acto de agravo histórico que tão somente apouca e envergonha quem dele, e por ele, poderá e deverá ser responsabilizado, como identifica a actual representação parlamentar portuguesa com a de um país que, se não permeia a barbárie, ao menos se revela incapaz de a condenar. Negar um voto de pesar pelo assassinato de um rei, a um século de distância, vitimado por uma conspiração protagonizada por uma sociedade secreta rasca, que não encontrou outra forma de se libertar do soberano se não retirando-lhe a vida, negar esse voto de pesar empobrece e desonra definitivamente os anais da República. O regicídio de Fevereiro de 1908 foi um acto de barbárie sem desculpa, nem justificação,um crime hediondo, já transitado em julgado, cuja sentença há muito condenou os seus autores morais e materiais às galés da História. Em política, nem só o que parece é. É-o, mesmo que a alguns possa não querer parecer. O dia 2 de Fevereiro de 1908 mergulhou Portugal num dos acontecimentos menos nobres que a humanidade protagonizou. Porque D. Carlos poderia merecer tudo menos a morte perpetrada daquela ignóbil maneira. Uma morte indigna, que apenas os tiranos merecem. E D. Carlos poderá ter sido tudo, mas tirano não foi.
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