UM OLHAR ÉTICO SOBRE OS HUMANOS A SOCIEDADE E A NATUREZA
O título do livro de António A. Silva reveste-se de propositada ambiguidade de que me interessa desvelar dois aspectos: ”Entrelinhas”, assim, no plural, significando o que não se escreveu abertamente, mas que se deduz e subentende porque está implícito no texto. Adiante escreverei sobre uma linha de sentido que percorre este livro de forma implícita. Mas entrelinhas também pode significar os espaços em branco, entre as linhas de uma pauta. Deste ponto de vista, é possível entrar no jogo metafórico consubstanciado nos três substantivos que acompanham o título do livro – a batuta, a pauta, a vida – e lê-lo assim: há uma mão inteligente (a batuta) que livre, critica e criadoramente produz os textos que se escrevem e inscrevem na terceira página do semanário “Soberania do Povo” (a pauta) e nos quais se canta a vida, com suas sonoridades, ora tristes ora alegres, ora eufóricas ora disfóricas, às vezes heróicas outras vezes dramáticas, de quando em quando roçando a farsa ou tombando no abismo da tragédia. Os 82 textos deste volume, publicados entre 18 de Outubro de 2005 e 24 de Outubro de 2007, no semanário “Soberania do Povo” (onze em 2005, trinta e sete em 2006 e trinta e quatro em 2007 ), espelham, de um modo muito pessoal e num estilo emotivo e acessível, mais mergulhado nas tintas da vida do que nas dos códigos da teoria da literatura, a reflexão do autor sobre uma ampla e diversificado temática, bem como acerca de problemas fundamentais que afligem os humanos, neste tempo avaro e egoísta a que alguém já chamou a “era do vazio”. Um filósofo alemão do século XX escreveu algures que a “linguagem é a morada do ser”, querendo com isso dizer que o que o homem é, na sua essência, nos planos filosófico, sociológico, politico, ético, estético, axiológico, se define através da sua linguagem, do seu discurso – no sentido amplo da palavra. O discurso que sustenta este livro de António A. Silva é extremamente coerente e, por isso, retrata com clareza o sujeito que o produziu e mostra, de forma límpida, a fonte de onde provém, que não é apenas uma nascente de palavras porque essas palavras vêm impregnadas da espuma dos dias e do fogo das noites de um universo pessoal e interpessoal, muito rico e variado, experimentado e reflectido pelo autor numa caminhada que já dura há mais de 67 anos. Acabada a leitura de ENTRELINHAS, o seu autor surge-nos como um homem solidário e de afectos, desde logo no retrato que nos deixa de dois músicos falecidos e com quem António A. Silva privou, ele que também foi da arte, como aqui e ali deixa transparecer na sua prosa. Porém, basta um só texto do livro para nos mostrar que também há no seu autor uma vertente que o transforma num agressivo e temível polemista contra quem com ele contenda no campo da ética, dos princípios e dos valores. Mas o que pretendo trazer a esta breve apresentação de ENTRELINHAS é a substância mais profunda que percorre o livro e não um ou outro aspecto mais particular ou ocasional, sempre produzidos por um homem que jamais renega as suas origens, o seu passado e as suas vivências e se orgulha do presente que foi construindo, num país que ele analisa com lucidez e objectividade, este seu Portugal adiado, transformado numa “Babilónia”, segundo as suas palavras, sacudida por funestas ondas de corrupção moral e politica. António A. Silva perfila-se neste livro muito mais como um cidadão preocupado com os valores, ou a sua ausência, e com uma dimensão ética da politica do que com a política em sentido estrito e estreito. Assim sendo, não é de estranhar o modo multifacetado, o que aborda as questões dos valores, ora alertando para o facto de “em Portugal estar a perder-se, dia a dia, a noção de honra” e a própria dignidade humana, que é um valor a preservar, intransigentemente, está seriamente abalada numa sociedade em que, nas suas palavras, a classe média está moribunda, os ricos mais ricos e os pobres mais pobres. Esta ideia de um Portugal adiado é recorrente na prosa de António A. Silva e, por isso, ele denuncia com grande frontalidade que “Por via da corrupção a muitos níveis, aumentam escandalosamente as grandes fortunas, enquanto crescem, vergonhosamente, as grandes misérias”. Enquanto isso, diz o autor de ENTRELINHAS, “Os governantes sofrem do síndroma dos cifrões. As pessoas passaram a ser apenas números”. Aqui temos António A. Silva na defesa da linha personalista, isto é, de respeito primordial pela pessoa humana, do pensador E. Mounier. Convém referir, no entanto, que o autor se afasta com inequívoca clareza de algum pensamento esquerdista ou esquerdizante que defende que o Portugal de Abril está pior do que o Portugal da ditadura. António A. Silva afirma, sem tibiezas, que “não tem saudades do tempo de Salazar” e acrescenta que “hoje vive-se melhor” Mas essa perspectiva, que partilho inteiramente, não lhe rouba sentido critico nem capacidade para avaliar a realidade que o cerca. Uma realidade em que ele decteta assinaláveis e nefastas carências em áreas tão importantes como a saúde, a educação, a justiça, que defende estejam ao serviço de todos, “mas sempre com maior preocupação com os mais desprotegidos”. É afinal uma sociedade solidária e de justiça social aquela que António A. Silva defende e pela qual se bate nos seus escritos. Por isso, condena e denuncia a insegurança social e pessoal que perpassa pela sociedade portuguesa e insurge-se contra o desemprego e a falta de emprego para jovens, carregados de amargura aos 18 anos, como nos conta num dos seus escritos. Não podia deixar de assinalar que o tema da educação e formação é frequente nos seus editoriais. Neles, com estimável desassombro, não só se refere às escassas habilitações dos trabalhadores, mas também às dos empresários, muitas vezes os principais responsáveis, na sua opinião, pelas falências das empresas e pelo crescimento do desemprego e também pela estagnação de largas manchas do tecido empresarial. É de sublinhar que António A. Silva afirma, num dos seus editoriais, que “não são as aspirações dos operários a melhores condições de trabalho a causa das empresas estagnarem”. Na verdade, o autor defende o direito ao trabalho e o trabalho com direitos, condenando apenas os trabalhadores, quer do sector público quer do privado, cujos procedimentos profissionais ficam aquém das exigências que lhes são cometidas, ou cuja actuação tripudia sobre regras e princípios sociais e profissionais, contribuindo deste modo para o enfraquecimento da coesão social. De forma consequente e de acordo com o que temos vindo a escrever sobre alguns dos aspectos que consideramos mais significativos do pensamento de António A. Silva, o editorialista de “Soberania do Povo” bate-se pela reforma das mentalidades e por uma escola de qualidade, sem a qual, diz António A. Silva, “não haverá progresso”. Progresso que, na sua opinião, não é possível alcançar se também não tivermos atenção à natureza e ao desencadear de estratégias contra a poluição, bem como se não sustivermos o assalto estrangeiro à nossa economia que em alguns sectores fez recrudescer a emigração, situação que António A. Silva não abraçaria, porque a saudade seria tão dilacerante que, nas suas palavras, “até da fome e do frio iria sentir saudades”. Diria, em síntese, que no pensamento de António A. Silva avultam quatro grandes propostas, imbuídas de um profundo sentido ético: Repensar numa nova ordem mundial; Promover o estudo e o trabalho para todos; Erradicar a miséria e a marginalidade; Fomentar a esperança, principalmente nos jovens. É a altura de, ao terminar esta apresentação, me referir, como no início prometi, ao filão mais rico das entrelinhas deste livro, ou seja, a grande linha de sentido que percorre, implicitamente, esta obra de António A. Silva que, na minha opinião, é a esperança inscrita no desejo de futuro, recusando assim o fim da história e o pensamento dos que defendem que os humanos deixaram de ser capazes de imaginar um futuro melhor, porque o presente está esgotado. Pelo contrário, creio não me enganar se disser que António A. Silva, acompanha, a seu modo, o poeta e ensaísta Manuel Gusmão, quando ele diz que “o carácter profundamente transformador do trabalho humano, o facto de uma criança de dois anos ser capaz de produzir uma frase que nunca ouviu, o facto de a poesia reinventar a língua em que se escreve, o facto de as artes serem construções antropológicas (...), são funda-mentos suficientes para que nos possamos, sem mais garantias, prometer um futuro. Porque nós habitamos o mundo, e o mundo é a nossa tarefa”.
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