Clube da Venda Nova: Vamos produzir chouriças de carne de coelho
A Associação Independente das Férias de Agadão, promoveu um acontecimento muito proveitoso para o povo daquela terra e para os forasteiros que a visitam - a Feira Rural, inspirada nos mercados medievais. Como não há dinheiro em circulação porque o fisco e a carestia levam-no todo, fazem a troca directa. Quer dizer, uma pessoa leva um coelho e traz uma galinha, uma abóbora ou uma carrada de palha. E também vendem dobrada com feijão, à moda do Lázaro, confeccionada numa barraca ao lado, explorada pelos Montanheses e que as pessoas levam em tachos, para casa. Para dar mais brilho e notabilidade, a feira foi aberta pelo presidente Gil Pedalais, que chegou acompanhado do seu séquito: «Estou muito contente por estar aqui. Gostei muito da ideia original desta feira e até já fui trocar um pacote de sequilhos e cavacas que trouxe de Águeda, por uma abóbora menina, para fazer umas papas. Gostava era de ver aqui o vosso presidente que diz aos quatro ventos que apoia tudo o que aqui se passa...”. «Mas é verdade que cortou relações com ele?» - perguntou a drª Cristina do Litro - ele diz que não sabe se quem cortou relações com ele ou com a junta foi o Clube ou o Presidente Gil Pedalais...». «Com a Junta não podemos falar, que não tem existência física - respondeu o Gil Pedalais - mas é evidente que nos sentimos tocados por quem nos atacou. Ou foi uma ou foi outro, mas como o outro representa uma e uma não disse nada, parece que foi uma e outro». «Já percebi e também não!», disse o Joaquim Sem Vento, chegando-se à frente, com um galo de pescoço pelado, com mais de três quilos dentro de um saco de serapilheira que trazia à tiracolo e com um tacho de alumínio na mão. E esclareceu que o galo era para trocar por um saco de milho para os pintos e o tacho era para levar duas doses de dobrada. «Queremos pedir-lhe um favor porque temos aqui um embaraço - continuou o Sem Vento - o relógio da torre está sempre avariado, não dá horas certas, são badaladas enganosas». «Isso é verdade - acrescentou o Xico dos Bombeiros - no quartel, lá ao lado, temos que andar sempre de relógio de pulso». «Pois é - continuou o Joaquim Sem Vento - por causa disso, eu que sou madrugador, já me levantei três vezes ao meio-dia e há pessoas aqui que já perderam o comboio, até na hora da missa se enganam!». «Parem-no de uma vez! - exclamou o Luís da Caixa - dêem-lhe uma martelada, que ele fica certo duas vezes ao dia». O Gil Pedalais ouviu atentamente e prometeu: «Fiquem descansados que eu trato disso, vou cá mandar o Melro da Diamante, que para o consertar nem precisa de lupa! E mais, também vos vou mandar taças em alumínio, descartáveis, tipo take away, para levarem a dobrada, não é preciso trazerem tachos de casa!». Entretanto, aproximaram-se o Horácio Coelhone e o Carlos Cunicultor, que traziam às costas um pau com duas chouriças penduradas e o primeiro pediu: «Ó Sr. Presidente, rogamos os seus bons ofícios para que seja aqui criada uma confraria que vai enriquecer a freguesia e até o país. Nós vamos começar a produzir chouriças de carne de coelho. Estas chouriças até podem ser mandadas para os árabes e para os judeus, que não comem carne de porco...”. «E o que é que têm de novidade?», perguntou o Jorge Enfermeiro, mostrando algum espanto. O Carlos Cunicultor deu um passo em frente e disse com convicção: «É que as chouriças de coelho são confeccionadas com as tripas do próprio coelho, em vinho de alhos!!! E, para divulgação, precisamos que nos ajude a criar a Confraria da Chouriça do Coelho». «Acho bem - respondeu o Gil Pedalais - mas quem sabe de confrarias é o dr. Joaquim Almada, da Confraria das Almas e do Leitão. Peçam-lhe os estatutos!».
845 vezes lido
|