Agadão: Relógio da torre a contar mal as horas
O relógio da torre da Igreja da minha freguesia de Agadão é mais velho, penso eu, do que qualquer pessoa deste meio rural.
É de um tempo em que, na maioria das casas, não havia nenhum relógio e era por ele que se sabiam as horas. Quase sempre se portou bem. Segundo consta, teve uma ou duas vezes doenças mais graves, que requereram a intervenção de especialistas, mas de uma maneira geral foi sempre saudável e, quando tinha qualquer enchaqueca, não era nada que o clínico geral que era o falecido e saudoso sr. Aníbal não tratasse. Ultimamente, começou a marcar as horas certas no relógio mas a tocá-las desfasadas. Só por acaso e raramente são coincidentes e confiáveis. E o mais estranho é que ninguém já se importa. É da velhice... Há dois aforismos que pela analogia com a presente situação vou citar: “Se a voz é de prata, o silêncio é de ouro” e o outro que diz “o ignorante e sábio só são parecidos quando ambos estão calados”. Pois é verdade! Não é que eu precise do relógio para nada, pois até tenho uma pequena colecção deles, e que funcionam “como relógios”. Mas parece-me que se a função do relógio da torre é prestar um serviço, o que ele (o de Agadão) está a fazer é desinformar. E se não houver possibilidade de o reparar, então que se substitua. E se nenhuma destas soluções for executada, então que se silencie de uma vez, para não termos de dizer, quando o ouvirmos: “Lá está o aldrabão”! Assim permiti-se-lhe poder morrer com dignidade. n J. SÃO BENTO
1076 vezes lido
|