Os muros do dinheiro
I Os grandes, sólidos, inatingíveis e imbatíveis banqueiros dos Estados Unidos da América do Norte, especularam com dinheiro que não era seu e atribuíram excessivo valor a coisas que, afinal, pouco valiam. Estatelaram-se. As pessoas e banqueiros de outros países acreditaram nas promessas anunciadas e investiram ou compraram papeis e compromissos que, afinal, não tinham suporte nem liquidez. Eram papeis sem valor. Os edifícios bancários, que quase arranhavam os céus, tornaram-se um inferno, onde tantos sobre-aquecimentos derreteram as expectativas dos depositantes. Nesta lava destruidora, foram arrastadas instituições e pessoas simples que acreditaram que com toda a riqueza anunciada e prometida, ninguém perderia e todos ganhariam. Arriscaram. Então surgiu o Tsunami financeiro, que abalou o próprio governo americano, abalos que ainda não terminaram. Todos se esqueceram dos Casinos, dos Eldorados de ilusões e fantasias, sempre esplendorosos de luzes, de espelhos, de mármores brilhantes, de mulheres bonitas e exuberantes, onde o tilintar das moedas, a vertigem das roletas que rodando entontecem, os gritos de alegria dos vencedores, o chocalhar das fichas, o anúncio estridente de novos milionários, escondia a verdade simples de aqueles oásis encantatórios do deserto de Las Vegas terem sido construídos e terem como função, iludir, entreter e conseguir lucros para os seus proprietários. Obviamente que se os proprietários ganham, se os vencedores do dia ganham, alguém tem que perder e pagar todos aqueles lucros. Obviamente os clientes acabarão por pagar. Eu visitei os Casinos do Atlantic City, de New Jersey, nos E.U.A., onde a organização oferece, a qualquer visitante, transporte e meia dúzia de fichas para experimentar a sorte do jogo, e para que a tentação, o vício e a ilusão provoquem a aquisição de mais e mais fichas, de que a voracidade das máquinas e dos jogos se alimenta. No Casino da Figueira da Foz, que não tem o luxo e a luxúria dos que referi, um responsável superior levou-me a visitar o salão das roletas e das mesas cobertas com pano verde, onde se perdiam e ganhavam fortunas, onde se esvaziam as carteiras e se hipotecam carros, casas e a própria família. Esse responsável superior do Casino da Figueira da Foz, apenas me impôs como condição da visita, a promessa de nunca arriscar os meus haveres naqueles locais. O que vi na cara, nos olhos, nas atitudes dos jogadores fez-me perceber o pedido do meu Amigo Carvalho. Não faltei à promessa.
II O grande, sólido, inatingível, imbatível, poderoso e rico país, que se chama Estados Unidos da América do Norte, com ouro, petróleo, com outras imensas riquezas, com negócios de armas, de medicamentos, de altas tecnologias em todas as áreas, com cientistas que dominam as fracções do átomo e dos invisíveis neurónios, detentores de satélites, conhecedores das viagens a planetas celestes e às fossas abissais dos fundos marítimos, com interesses económicos em todo o mundo terrestre, com o total domínio de todos os mares, estão, anuncia-se, na eminência de não pagarem aos seus credores. Os americanos não mereciam este susto. Considerando o montante da dívida externa americana, o actual ritmo do crescimento da sua economia, o número de desempregados, o volume de instituições financeiras e de pequenos investidores de todo o Mundo que acreditaram e acreditam no imenso poderio e na solidez dos E.U.A., e que directa ou indirectamente ali depositaram as suas economias, é facto que os depositantes e investidores estão atónitos e temerosos. Ansiosamente todos estão esperançados que Republicanos e Democratas se entendam e aprofundem as diversas questões, no sentido de evitarem um terrível tsunami que sacuda perigosamente o Ocidente e o Oriente. Recordemos que, segundo consta, a China é o maior credor dos E.U.A.. Como foi possível, no caso da Banca e no caso da Dívida, chegar-se a este ponto? Onde foi gasta a riqueza existente? A América do Norte, apoio, dinamizador, sustento e exemplo de generosidade de tantas gerações, apareceu subitamente fragilizada, e apesar de tão endeusada, surge escandalosa e perigosamente com pés de barro. Bastava-nos a fome na África e a austeridade na Europa. As ameaças ou hipóteses de incumprimento dos E.U.A., seria uma catástrofe. Nestes tempos vertiginosos e turbulentos é fundamental manter alguma esperança. Esperança e confiança no Presidente OBAMA. Esperança nos deuses, na natureza, nos humanos e, nomeadamente, em cada um de nós. Mas que as nuvens que nos protegem das radiações estão demasiado escuras e carregadas, lá isso estão. Até eu que sou um distraído, dou por isso. O Muro de Berlim caiu. Ainda bem. Que Muros de Dinheiro estão a cair? n SILVA PINTO Email – jjsilvapinto@live.com.
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