O Caminho de Santiago no concelho de Águeda (2)
O fenómeno jacobeu começa, desde a mais recuada idade média, a expressar a sua importância e a sua interacção com o território português e mesmo com o território desta região.
Documentos coevos, tanto em termos do desenvolvimento do culto a Santiago e da peregrinação jacobeia, como de doações à Igreja Compostelana fazem-lhe notória referência. É num deles, anterior à nacionalidade, datado de 883, que vamos encontrar uma doação de D. Afonso III, o Grande, Rei das Astúrias e Leão (848 - 910), à Igreja de Compostela, da terça parte da uilla de Travaçô, entre Águeda e Vouga. “(…) et terciampartem de uilla Trauazolum inter Agatam et Uaugam.” (Tumbo A de la Catedral de Santiago, doe.17, p. 71; livro Preto, doc.12). Mas em que contexto é que o culto de Santiago se radica na península? Tiago, filho de Zebedeu, um dos doze apóstolos de Jesus, vem para a península Ibérica, na vigência do império romano, pelo imperativo de evangelizar. Antes de partir, Jesus tinha dito aos doze: “sereis minhas testemunhas, em Jerusalém, toda a Judeia e até ao fim da Terra”. Tiago tinha, pois, que partir, como fizeram os outros apóstolos, e foi a Ibéria que ele escolheu para levar a mensagem de Jesus. Tiago terá embarcado num barco que comerciava ferro e estanho e terá aportado a um dos portos da Ibéria, Lisboa é uma das hipóteses. Teria chegado a esta província do Império Romano, e ficado por cinco ou seis anos e pregou do litoral ao interior, percorrendo as vias mais importantes do ocidente peninsular, e com certeza a via XVI do itinerário de Antonino, a espinha dorsal do litoral ibérico, que ligava Olissipo a Bracara Augusta, hoje Lisboa e Braga. De Braga e Rates há registo da sua estada, porém, de volta à Palestina, chamado em sonhos, por Pedro, foi decapitado em Cesareia, às mãos do Rei Herodes Agripa, perseguidor dos cristãos, que proibiu, que o seu corpo fosse sepultado na cidade. O corpo foi então lançado fora da muralha da cidade, mas, como antes de morrer, Tiago, expressando a sua última vontade, pedira a dois de seus discípulos, Atanásio e Teodoro, que o seu corpo fosse levado de volta à Ibéria, onde passara parte da sua vida, evangelizando, eles teriam depositado o corpo numa tumba de mármore e tê-la-iam levado de barco, em viagem de cabotagem, até à cidade de Iria Flavia, hoje Padrón, às margens do Rio Ulla, na Galiza, seguindo por terra até Libredón, onde ele teria sido sepultado no ano 44 d.C. Quem governava aquele território, por aquela época, era Lupa, rainha celta, convertida ao cristianismo, que permitiu o sepultamento do apóstolo no seu túmulo de família. No mesmo local seriam sepultados também os dois discípulos de Tiago, que até ali o haviam trazido. Os cristãos primitivos veneravam o local, faziam-se ali sepultar e construíram uma igreja. Durante a ocupação muçulmana perdeu-se o rasto do local onde se encontrava o túmulo do Apóstolo. Mais tarde, nos começos do século IX um monge de nome Pélagio afirma ter visto umas luzes num bosque durante várias noites. Julgando estar na presença de algo sobrenatural, decide informar o bispo de Iria Flavia, Teodomiro. Este, dirige-se ao local indicado e encontra as ruínas de uma antiga igreja e três túmulos. Reconhecido o local, o bispo encarregou-se de publicitar o «descobrimento» entre os reinos cristãos da Europa de então. Posteriormente, Teodomiro muda de residência episcopal para Compostela, dando início à grande viragem no culto a São Tiago. n ONDINA DAVID
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