O Caminho de Santiago no concelho de Águeda (4)
A peregrinação a Santiago de Compostela tornara-se prática de todas as classes sociais do reino e também os nossos primeiros reis peregrinaram a Santiago, D. Afonso II, em 1220, D. Sancho II, em 1244. Muitos clérigos e nobres espanhóis, especialmente de Castela e Andaluzia, rumavam a ocidente para fazerem a peregrinação pela via lusitana, por ser mais plana e mais povoada. O mesmo faziam os italianos e de outros países. Muitos documentos atestam que alguns peregrinos faziam testamento antes de partir em peregrinação, posto que era uma grande aventura fazer o Caminho, foi o caso de que nos chega notícia mais antiga, de Fernando Dias, em 1173. Cedo começou também a ser corrente a prática da peregrinação por substituição. Havia quem estipulasse uma quantia em testamento para quem lhe fizesse a peregrinação após a sua morte: em 1263, João Diogo destinou em testamento uma quantia para quem fosse por ele a Santiago da Galiza; Domna Dominica Joannis, em 1269, testamentou “…homini qui vadat pro me ad sanctum Jacobum sex libras e quatuor libras pro oferta”, D. Ilvira Soares, em 1290, “a quem vá por mim a Santiago da Galiza hum moravid e meyo”; Nicolau Giraldes, em 1350, “item mando que pello meu haver inviem um homem a São Tiago de Galiza, e mandem alo dizer uma missa e ponhão hi uma candea e orada por mim”. Mais tarde, a Infanta D. Maria, filha de D. João I, também usou esta alternativa, pois conforme regista o cronista real, Fernão Lopes, “a Frei André de Fezes, pediu a Infanta D. Maria, filha daquele monarca, para fazer por ella uma romaria a Santiago da Galiza”. Mas a mais célebre peregrinação desta época foi a da Rainha Santa Isabel, que fez pousada em Águeda, quando, por duas vezes, peregrinou a Santiago. Vários são os documentos históricos que confirmam o facto de a Rainha Santa Isabel se ter deslocado a Santiago de Compostela, tanto documentos portugueses como documentos lavrados em Santiago. E múltiplas são também as lendas que a passagem de tão ilustre peregrina ajudou a construir ao longo do Caminho que trilhou. A HISTÓRIA
1. A História - A Historiografia documenta duas peregrinações da Rainha Santa Isabel de Coimbra a Santiago de Compostela. A primeira, em 1325, ano da morte de D. Dinis, já viúva, com duas damas da sua corte e seu estadão real, quando na Catedral ofereceu a sua coroa como prova da sua devoção ao apóstolo. A segunda, em 1335, um ano antes da sua morte, citada pelo cronista Rui de Pina, envergando a rainha o hábito de monja Clarissa, tendo recebido das mãos do Arcebispo de Santiago a oferta de um bordão de peregrino em forma de Taú, que a acompanhou na sua sepultura tumular no mosteiro de Santa Clara e pode ser admirado no Museu Machado de Castro, em Coimbra. “O bordão, de jaspe e prata, foi encontrado, no século XVII, sobre o ataúde onde se guardavam os seus restos mortais. Oferecido pelo arcebispo de Compostela à Rainha Isabel, aquando da sua peregrinação a Santiago, o bordão em forma de Taú, apresenta uma singular empunhadura, em jaspe vermelho sanguíneo, rematada por duas cabeças de leão, em prata, que se encontra fixada à vara por dois triângulos de prata, decorados com trifólios recortados e vazados. Na alma de madeira revestida de prata, encontram-se gravadas as tradicionais vieiras, em prata dourada”. A passagem da Rainha Santa por Águeda, a caminho de Santiago de Compostela, está documentada segundo Serafim Soares da Graça e outros, em registo antigo que existe no tombo do Hospital de Águeda, no qual a rainha faz uma doação ao hospital-albergaria existente à época, perto do cais do rio e junto da capela da Nossa Senhora da Boa Morte, que aí existia, hoje Largo dr. Elísio Sucena, e no qual pernoitou, aquando da sua passagem como peregrina.
A LENDA
2. A Lenda - As lendas são urdiduras da imaginação colectiva, para tecer a fios de luar, as explicações da realidade que nos cerca. Assim, a lenda, tecida na trama da fantasia, vem falar-nos da passagem da Real Peregrina por estas terras e dar uma explicação, ainda que ingénua, para o nome do rio que atravessa a Bairrada toda e vem alimentar a Pateira, no nosso concelho. Conta pois a lenda que, viajando a Rainha Santa Isabel, numa mula, como peregrina a caminho de Santiago de Compostela, acompanhada de suas aias, ao passar junto do rio que ali corre entre Aguada de Baixo e Barrô, no pino da tarde, cansada e com sede, pede para se apearem cerca do rio, que ali a convidava, manso em seu remanso. A Rainha precisava refrescar-se, a comitiva ia sequiosa e os animais sedentos. Apearam-se, dessedentaram as azémolas, refrescaram-se, e a Rainha, querendo matar a sede, sem que houvesse uma fonte por perto, disse a suas aias que queria beber da água do rio e elas “…lhe disseram que o não fizesse, que era agua de pessima qualidade, tanto para a gente, como para o gado que d’ella bebia”. A Santa provou, e disse – “Cérto má!” - e ficou-lhe o nome: mas desde então por diante ficou sendo esta agua d’optima qualidade”. Se a rainha fez concha com as mãos ambas, ou se usou uma vieira, a lenda não diz, só que bebeu daquela água, que embora vindo do bosque sacrum, (leia-se Bussaco ou Buçaco na grafia actual), chegada ali, vinha já conspurcada e mal saborosa. E desta feita o rio se deixou baptizar pela Santa Rainha, porque estas palavras, ouvidas pelo povo que por ali labutava nos campos e vendo o estandarte real se acercara para admirar a sua Rainha, contadas e recontadas ao longo dos tempos, formariam a palavra que é hoje o nome do rio Cértoma ou Cértima, que nos é tão familiar. n Ondina David
1766 vezes lido
|