Ilustres são as terras que honram os ilustres filhos seus!
O último sábado foi um dia grande para Águeda, não só por ter tido entre si um dos seus mais ilustres, mas porque assinalou, com a pompa ajustada à circunstância, o baptismo da Biblioteca Municipal Manuel Alegre. Foi uma cerimónia com significado bastante para encher o ego dos aguedenses, amigos e contemporâneos do homenageado. É interessante verificar como o admiram não só os do seu tempo, que com ele cresceram, companheiros de rua e da escola que com ele privaram no quotidiano, que com ele partilharam brincadeiras e malandrices pelas ruas estreitas e veredas enlameadas da vila, mas muitos outros foram os que deram testemunho de admiração pelo seu percurso, bem patente na obra literária que nos legou. Pena é que, por antecipação calculada, a um acto tão digno quanto este, a que os aguedenses aderiram da forma positiva, brilhante e espontânea, surgissem, no horizonte, umas quantas garroas negras, empestadas de ódio que, usando a baixa política, ameaçavam ofuscar um lindo dia de sol outonal, em que a cidade se engalanou para ir à festa. Nunca tive jeito para a política, mas, lá bem longe no tempo, fui simpatizante de um partido que se orgulhava de ter no seu seio Homens da mais alta estirpe e sabedoria. Em nome da liberdade, que tanto prezo, dei a cara por esse partido nas primeiras eleições livres do nosso tempo (1976). E, apesar de nunca ter aceitado a filiação partidária, por a considerar desajustada à minha noção de liberdade, foi com alma e todo o empenho que defendi aquelas cores como número dois da lista para a Assembleia Municipal, para a qual fui eleito e cujo mandato cumpri, não obstante, ao tempo, haver muitos receios em defender aquela corrente política. Desse tempo, ficou muita simpatia e alguma dela perdura, mas vai esmorecendo à medida que o fair play dá lugar ao fait-divers que o partido utiliza, desde que perdeu os símbolos de carácter e nobreza de um Adriano Moreira, um Adelino Amaro da Costa, um Lucas Pires ou Freitas do Amaral e tantos outros que, hoje, já não se revêem no partido de hoje. Entristece-me ver como os arautos de um partido de índole cristã, se aprestem a tão desqualificadas e mesquinhas atitudes como as acabadas de ser editadas na imprensa local. Não creio que os ideólogos fundadores do partido, estejam de acordo com o que se passa à nossa beira, nem sequer se revejam nas formas pouco ortodoxas usadas pelos seus seguidores. Muito menos creio que subscrevam os termos execráveis com que o partido local se dirige, não só aos adversários políticos, mas a todos aqueles de quem não gosta. Desta vez, o pomo da discórdia foi o nome da Biblioteca Municipal: O Manuel Alegre nunca fez nada por Águeda, dizem! Até parece que o Luís de Camões escreveu os Lusíadas sentado numa pedra na Rua de Cima e que o Vasco da Gama aportou a sua caravela algures, na Rua de Baixo. Felizmente que, para alguns, a chegada ao poder, é apenas uma miragem! E acabo como comecei: Ilustres as terras que honram os mais ilustres filhos seus! 2010-10-20. n a. a. silva
1977 vezes lido
|