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O pão nosso de cada dia

por Carlos Abrantes em Junho 30,2010

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Tenho aproveitado os tempos livres para rever alguns dos meus livros de banda desenhada. Entre um sem fim de compilações do Astérix e do Tintin, da Mafalda e do Dibert, do Homem Aranha e do Calvin, embiquei com o cartoon de uma criança a rezar. Com ar cândido, pedia ao Senhor: “Dai-nos o pão nosso de cada dia, com manteiga ou marmelada…”.
O pão nosso de cada dia com manteiga ou marmelada? O diabo do miúdo deve ser a encarnação do mafarrico, pensei. Então reza e peca em simultâneo? Ou será que ainda não lhe ensinaram, na catequese, que a gula é um pecado grave?
Foram breves estas cogitações. Afinal tratava-se apenas de um cartoon, cheio de humor, publicado em 1961. E a criancinha também não pedia muito. Se fosse hoje não incomodaria o Pai do Céu por tão pouco. Pão? Manteiga? Marmelada? Ainda se fosse um Happy Meal e um Sundae, no McDonald´s! Ou uma consola de jogos da playstation! Ou uma trotineta com motor! Pedir ao Senhor, que tudo pode, pão e manteiga? Isso pede aos pais, ou aos avós, ou lá na escola!
De cogitação em cogitação,  dou comigo a transportar-me das criancinhas para os adultos. Também estes, que na década de sessenta apenas pediam ao Senhor o pão nosso de cada dia, foram sendo mais exigentes nas suas preces. Foram pedindo mais e mais. Primeiro o pão, depois a refeição completa, a seguir a motorizada, e o carro, e a casa, e as férias no Algarve e no estrangeiro.
Face a tanta solicitação o Senhor, na Sua infinita bondade e inteligência, decidiu encaminhar os pedidos para o Espírito Santo. Não para aquele que aparece representado por uma pomba branca, mas para o do Banco. É por essa altura que surge a questão do endividamento. Porque, ao contrário do Senhor, o Espírito Santo não dava nada a ninguém. O Espírito Santo emprestava o capital para comprar a motorizada, o carro, a casa, ou as férias, mas cobrava juros! E exigia hipoteca e fiador!
Apesar disso, a clientela cresceu a olhos vistos, o negócio prosperou e proliferaram os concorrentes - a Caixa Geral de Depósitos, o BCP, o BPI, o Banif e outros menos católicos, como o BPN e o BPP que, por terem práticas heréticas, acabaram mal. Mesmo assim o Senhor, pródigo, nunca os desprotegeu proporcionando-lhes chorudos lucros, o maná das sociedades contemporâneas.
Até quando estava ocupado com tarefas mais importantes e parecia desampará-los, iluminou os Governos para uma ajudinha, por caridade. Por isso, nunca lhes faltou apoio, nem mordomias, nem dinheiro, mesmo que tenham de ser os contribuintes a pagar. Parece milagre! Ou melhor, parece coisa do diabo!



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