Imaginem qual o corpo de animal em que gostariam de ver a vossa cabeça
Abriu a Feira Rural, com o aparato próprio dos grandes acontecimentos, num concelho que tem grandes manadas de gado manso e domesticado, habituado ao remanso dos estábulos e redis. Na inauguração, ao cortar da fita, lá estava a nomenclatura, outros notáveis e muito povo. E o Gil Pedalais, já cansado de esperar pelo ministro que não veio, disse enfaticamente: “É com muita honra que vos recebemos, assim como recebemos todos os animais que se espalham aí pelo recinto nos seus abrigos, construídos com grande carinho pelo Clube. Animais que têm grande significado zoo-antropológico...” “Pois têm – continuou o Deniz de Bouquets – os deuses e semi-deuses da mitologia eram representados por figuras com cabeça de homem e corpo de animal, como, por exemplo, o sátiro, que tinha cabeça de homem e corpo de bode, o minotauro que tinha corpo de touro e cabeça humana... e num puro exercício intelectual, dêem uma volta por aí e imaginem qual o corpo de animal em que gostariam de ver a vossa cabeça. “Isso é irracional e impróprio e não se diz a ninguém“, comentou, indignada, a Manuela dos Cacos, enquanto afagava a cabeça de um burro. “Por falar em irracional – retomou a palavra o Gil Pedalais – como sabem, no sábado vai haver na recém-construída Monumental dos Abadinhos, a anunciada tourada. Queríamos representar Águeda condignamente e organizou-se um grupo de forcados – Forcados Amadores de Águeda – com jaquetas de tremoceiro, ceroulas de pescador da Pateira e um chapéu de serrano. Foi organizado sob a orientação do Cardosão das Estradas, que é o cabo do grupo e fica atrás da trincheira. Por ser o capitão, sou eu a ir à cara do touro, o primeiro ajuda é o Jorge Enfermeiro e o segundo o João Piedoso. O Brito Redentor, que tem bom arcaboiço, tinha-se oferecido para ajuda, mas não confio nele, fica para rabejador...” “Deixem-se disso, que ainda algum se aleija e ficamos sem governo”, disse o S. Bento de Alcafaz, acrescentando: “Convidem um grupo de Santarém ou de Almeirim...”.
*** * *** O Dr. Paulo Assucena ocupou sozinho a mesa de canto de um restaurante das bandas de cima, pediu uma dose reforçada de rojões e, enquanto esperava, inspirado na airosa empregada de cabelos longos que o servia, começou a escrever um poema dramático, em três actos, com grande carga erótica. Escreveu o primeiro acto antes de chegarem os rojões, o segundo entre os rojões e a sobremesa e quando começou a escrever o terceiro, saiu porta fora e esqueceu-se de pagar, dada a abstracção e o arrebatamento. “Venha cá – chamou a empregada – então não quer pagar?”. O Dr. Paulo Assucena acordou e disse: “Eu vou pagar, mas não devia, estragou-me o final do terceiro acto, estava mesmo a atingir o climax!” O poeta Catula, que estava a tomar uma água das pedras ao balcão, apercebeu-se do que se passou e, num guardanapo, compôs este lindo poema: “Os longos cabelos/Por serem tão belos/Foram o tema/De um erótico poema/Que Paulo Assucena/Não concluiu E foi pena/O climax, por pouco, não atingiu!/Acabou por esfriar/Quando a musa lhe veio apresentar!A conta para pagar!
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