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Era e foi mesmo assim

por Manuel José Homem Mello em Março 17,2010

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A transcrição de duas ou três páginas do meu livro “Meio Século de observação”, a propósito da hipócrita “conversão” comunista ao sistema marxista-leninista, transcrição que teve o mérito de despertar alguns já esquecidos do que aconteceu com a URSS, desde 1914 até 1989, incita-me a contar a história da minha visita à Hungria em Agosto de 1964, no intuito de ficar a conhecer a realidade e de assim poder comparar.
Não foi nada fácil obter o “visto” de saída de Portugal com destino para além da “Cortina de Ferro”, como nada fácil foi conseguir que o governo húngaro também autorizasse a nossa entrada no “paraíso” soviético.
Procurar esquecer o passado e fazer de conta que já se esfumou através da chaminé da História constitui um erro gravíssimo, do qual, mais cedo ou mais tarde, havemos de nos arrepender. O divórcio entre o que aconteceu e o que está a acontecer é susceptível de provocar as mais graves consequências porque é através das lições que colhemos do passado que poderemos basear os alicerces do futuro.
É bem possível que alguns leitores SP tenham ainda nos escaninhos da memória o que foi o martírio que a ocupação soviética representou para a generalidade dos habitantes da Europa do Leste, desde a dominação nazi até à libertação da suserania moscovita.
Vou, então, contar e rememorar o que se passou com minha mulher e comigo quando visitámos a Hungria, no Verão de 1964. Não sei já como consegui a almejada autorização. A verdade é que, no seguimento de um congresso Internacional promovido pelo Diner´s Clube, de que eu era o presidente em Portugal, consegui visto para ir à Hungria, ou seja penetrar num dos países da Cortina de Ferro.
Acompanhado de minha mulher, tomámos o avião em meados de Agosto daquele ano de 64. Com umas boas doses de vodca, lá conseguimos chegar mas o aspecto do avião provocava-nos calafrios na espinha. Apesar das dificuldades, pensei que a realização do congresso do Dinners em Atenas talvez me ensejasse, por parte dos países satelizados, visitar um deles. Neste caso, a Hungria que era o menos ferreamente ocupado. Visitar nessa altura a cortina de ferro, era uma espécie de ensaio temerário que poucos conseguiam concretizar. O hotel onde nos instalámos, de nome Gallert, não fugia à regra. Tinha sido um Palace, agora não passava de mobiliário deteriorado com os rádios apenas recepcionando estações oriundas da cortina.
Na tabacaria, encontravam-se escassos livros e algumas revistas soviéticas ou dos satélites - ilegíveis para nós - à excepção do L’Humanité e do Unitá, órgãos dos partidos comunistas francês e italiano. Cigarros, só de confecção húngara e de qualidade execrável.
Após uma visita pela cidade, decidimos ir até ao Lago Ballaton, a umas dezenas de quilómetros da capital. Os autocarros tinham tal aparência que preferimos alugar um carro sem condutor. Fui o primeiro turista a alugar um automóvel sem condutor.
Fui à tabacaria e adquiri quatro ou cinco maços de Lucky Strike. No momento em que lhos entreguei, o jovem “hertziano” não resistiu à emoção: abraçou-me a soluçar (...).
A sensação de opressão que nos rodeava levou-me a abreviar o regresso. Lembrei-me então de regressar de comboio. Tanto mais quanto Budapeste é bastante perto de Viena.
Diabo de ideia a minha. O desejo manifestado, trocando de meio de transporte, substituindo o avião pelo comboio, provocou suspeitas inesperadas no pessoal da venda de bilhetes.
Por mais anos que viva jamais poderei esquecer o espectáculo quase dantesco da partida.
Circundando a composição, algumas dezenas de soldados, portadores de kalachnikovs, não perdiam de vista as portas de cada carruagem. Antes do comboio partir, voltaríamos de ter de apresentar os documentos. E quando finalmente partimos, os soldados acompanharam a composição ferroviária até ao limite.
Entre o fascismo de Lisboa e o comunismo de Budapeste, a escolha não parecia difícil. O autoritarismo incomoda; mas a tirania sufoca!
n MJHM - Director honorário SP


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