Os republicanos fizeram do tricentenário de Camões pretexto para o país sentir a urgência do renascer da Pátria a agonizar às mãos dos Braganças. E, em 1891, aproveitaram a unanimidade da reacção nacional à afronta e às humilhantes cedências ao ultimato inglês para se levantarem em armas no Porto para derrubar a monarquia. Mas, na verdade, eles não foram, nem os primeiros nem os recoveiros exclusivos do regime.
A monarquia liberal há muito que vinha sendo debilitada por dentro do próprio sistema constitucional por força das administrações ruinosas e venais dos partidos rotativos, regenerador e progressista, que hipotecavam o país, tornando-o refém de credores externos. Por outro lado, a turbulência parlamentar, os escândalos e fumos de corrupção e as dissidências partidárias mais não faziam do que desacreditar o constitucionalismo monárquico e o próprio regime. E tudo isso sob a compla-cência do rei ou até com a sua conivência.
A questão dos adiantamentos acabaria por envolver directamente o rei no plano moral. A manutenção da família real era suportada pelo erário público, mas com a justificação de que a verba oficialmente estabelecida se mostrava insuficiente, o rei, ano a ano, foi solicitando adiantamentos que todos os governos foram satisfazendo, desde 1890. A gravidade de tal procedimento residia no facto de não se prestar contas desses montantes que, em 1906, ascendiam a 17 adiantamentos. Quando João Franco levantou o problema nas Cortes, com a intenção de se liquidar de vez o empréstimo, a questão dos adiantamentos, além de provocar fortes embaraços aos partidos rotativos, serviria aos republicanos para uma das mais violentas campanhas contra a monarquia. Afonso Costa chegou ao ponto de sugerir a João Franco que dissesse ao rei “Retire-se, Senhor, saia do país para não ter de entrar numa prisão em nome da lei”.
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