Memória do meu amigo Vidal
No dia do 131º aniversário de “Soberania do Povo”, permito-me dirigir uma simples palavra de parabéns ao director e sub-director do semanário bem como aos membros da redacção e a todos quantos contribuem para manter vivo e actuante o mais antigo semanário do país. Saudação não meramente protocolar, mas de vero apreço por quem, num tempo em que o convívio social chegou às ruas da amargura, abre as portas semanalmente a todos os que, através da palavra, não deixam que um excessivo e desalmado individualismo seque quotidianamente as fontes de uma fraterna solidariedade. A par do salve-se quem puder, numa era de incertezas e precariedades, de solidões e angústias, de manhãs sem amanhã e de noites sem luar, há aqueles que se afadigam em apagar a memória, em branquear o que foi negro, a deixar-nos nus perante o futuro, como se ele pudesse sorrir a um povo que prescinde da sua memória e da sua história. Porém, neste número de aniversário de “Soberania do Povo”, não é de memória histórica, social e cultural que quero falar mas tão-somente da memória afectiva, sempre um porto seguro, mesmo num país sem projecto e sem rumo. Peço, então, a boa vontade dos leitores para umas poucas de palavras com que quero lembrar o meu Amigo Vidal, homem de uma discreta delicadeza e de um convívio, no seu restaurante das Almas da Areosa, que quanto mais apagado parecia mais fraterno e atencioso nos chegava. Aquele modo de receber e de imediato nos envolver, roubando-nos subtilmente a etiqueta de clientes para logo nos tornar amigo ou, se preferirem, o filho pródigo, por largos meses ausente, mas acolhido como se da casa sempre fosse, é um dos traços mais impressivos da Águeda- -“Alma”, essa terra que o tempo a pouco e pouco vai tragando. Foi num número da “Soberania”, lido já fora do tempo da sua saída, que dei pela morte do meu Amigo Vidal, figura tutelar de um restaurante que alguém crismou de Catedral do Leitão. Lá, na sua sala familiar, depois de um almoço impossível de pagar, porque aquele espaço também era a sua casa, modo sagaz de subtrair um gesto de afectuosa amabilidade ao seu terreno próprio, combinámos um almoço de pato com arroz de açafrão, especiaria que o meu Amigo Henrique de Melo, também presente, haveria de fazer chegar da Índia às Almas da Areosa. O tempo foi mesquinho e roubou-nos essa possibilidade de mais um são e quente convívio. Todavia não tem poder para nos impedir que, memorialmente, nos sentemos com o Amigo Vidal a comer esse pato com arroz de açafrão, que terá o travo amargo e doce que a nostalgia do nunca mais deixa em nós. E assim é, porque são insondáveis os poderes da Amizade. n PS
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