Opinião: Discurso Daliliano
O Presidente da República, no decorrer da sua presidência, fez algumas comunicações televisivas dirigidas à Nação. Não contando aquelas conversas perfeitamente estereotipadas e previsíveis - como são as comunicações de Ano Novo e do dia 10 de Junho, que em geral são folclóricas e inócuas, não aquecem nem arrefecem e não contêm uma migalha de interesse para a construção do país -, sobram duas comunicações que foram anunciadas no meio de crises sociais e, por isso mesmo, ansiosamente esperadas e escutadas pêlos portugueses preocupados com o rumo incerto do país no atravessamento de uma crise económica que promove despedimentos e que caminha não se sabe muito bem para que futuro. Por isso os portugueses ficaram atentos às palestras anunciadas, na esperança de ouvirem algo de positivo e encorajador. Os discursos esperados, em tais circunstâncias, acabaram por resultar em baldes de água fria ou, se quisermos dar-lhes um toque menos popular, foram verdadeiras atitudes surrealistas... coisa que eu não esperava de uma personalidade tão severa e conservadora, esquiva e tão temente a Deus, como é o professor Cavaco Silva! Os dois discursos O primeiro discurso pretendeu defender o seu estatuto de presidente no arquipélago dos Açores que, em sua opinião, estaria em risco. Facto que só interessava a ele próprio e a alguns açorianos, e não à totalidade da Nação. Mesmo que tal questão viesse a colidir com o poder interventivo de futuros presidentes, a resolução do problema teria de passar pelo Tribunal competente (como passou), dispensando a tão dramática “comunicação-queixinha” ao país. O segundo discurso, neste momento ainda a ser digerido por muitos portugueses, se bem o entendi (já que é hermético, precisei de o descodificar, e confesso que não sei se o percebi na totalidade, porque Cavaco Silva tem a particularidade de falar para si próprio e nunca para os outros, não passou de uma outra queixinha. Parece que o senhor Presidente pensa que, provavelmente, o espiam através da internet e o querem colar ao PPD-PSD - em cujo partido militou, foi dirigente, e pelo qual assumiu, por mais do que um mandato, funções governamentais, entre as quais o posto de 1º. Ministro e, por último, foi com o apoio do PPD-PSD e com os votos dos seus militantes, que foi eleito presidente da República!... Os portugueses cabe perguntar: o que tenho eu, e todos os portugueses, a ver com isso?!... Se o senhor Presidente se sente espiado, esmiuçado e o seu portal de internet esventrado, que se queixe à Polícia Judiciária! Não a nós. Os problemas dos portugueses não se resolvem trancando um sítio internáutico. Não auferimos melhores ordenados e pensões de reforma por isso, nem construímos melhores e mais rentáveis empresas, nem optimizamos o ensino, se soubermos do mesquinho problema particular que aflige o senhor Aníbal Cavaco Silva! Ainda estou em choque e perplexo com tal comunicação que não me parece verdadeira, e a primeira imagem que ela me transmitiu continua a prevalecer como última conclusão: aquilo pareceu-me retirado de uma revista cor-de-rosa (por acaso a cor das paredes do palácio de Belém!), daquelas publicações de conteúdo perfeitamente serôdio e imbecil, produzidas pelo execrável e intragável jet-set, e avidamente consumidas por cabeças ocas de olhos postos em programas televisivos desmiolados, de gente preocupadíssima com o supérfluo e devoradora compulsiva de produtos pimba e de missas. Francamente, eu, como cidadão que se preocupa em ser cívico, interessado no desenvolvimento do país e no futuro dos meus netos, acho que todos nós merecemos um Presidente da República com muito mais qualidade, mais atento aos problemas reais da sociedade e menos concentrado nas suas questiúnculas particulares, por muito respeito que elas me mereçam. n ONOFRE VARELA Jornalista (carteira profissional nº. 1971).
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