Clube da Venda Nova: Um bloco, é um bloco, seja de rosas ou de cimento
O pundenoroso povo da Guístola de Agadão, todos os anos veste a capela, o adro e as ruas de arcos, de enfeites, de alecrim e rosmaninho, para festejar o seu santo, o S. Tomé. Foguetório, romaria e religiosidade em simbiose, ao que não falta a procissão com andores, pendões, anjinhos e bandas de música. Naquele domingo, à espera da procissão, uma pequena mole de gente. Os da Irmandade, com as opas vermelhas até aos pés, passeavam-se pelo adro. Os porta-pendões e andores, de luvas brancas, esperavam ordem para avançar, assim como os caminheiros, os amortalhados e os pagadores de promessa. O sino repicava sonoro. As portas da capela abriram-se. O padre entrou e saiu esbaforido e nervoso e gritou: “Já não pode haver procissão! Caíram duas santas dos andores e partiram a cabeça, uma delas, a Santa Luzia, que tem tantos devotos! O Joaquim Sem Vento, o Eduardo do Café, o Augusto Farás e outros foram a correr, quase a tropeçar nas vestes talares, perguntando arfantes: “O quê?!!!...”. “É verdade, só está inteiro o S.Tomé”, respondeu o Padre – ele que só acredita no que vê, até está pasmado! “O santo da nossa terra, vê-se que é forte e inquebrantável”, disse o Joaquim Sem Vento, a olhar o céu. “Benza-o Deus!...”, acrescentou. “E não deve ser tão egoísta que tenha empurrado as santas para ir sozinho na procissão! “, rematou o António Farás. Ao saber de tal acidente as pessoas interrogavam-se sobre qual seria o motivo de facto tão inverosímel. E a Banda da Castanheira que estava para arrancar com uma alegre marcha marcial, começou a tocar o Requiem...
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Causou alguma surpresa o anúncio do enfeudamento do Santos Selva ao Bloco. Esperava-se uma apresentação agressiva, com discurso panfletário, mas surpreendeu pela brandura a todos os que assistiram. “Vou fazer uma campanha suave, sem dizer mal de ninguém, para não correr o risco de dizerem mal de mim. E se disserem mal de mim eu vou dizer mal do que disse mal de mim e o que disse...”. “Mas como é que, tendo sido um incontornável partidário da rosa, mudou agora para o bloco?”, perguntou o Jorginho Gosta, em serviço de reportagem. “Eu explico – respondeu o Santos Selva – um bloco, é um bloco, que até pode ser de cimento, é uma coisa forte, que magoa se cair em cima de um pé! Uma rosa, é uma flor, muito agradável, mas frágil, que se desfaz...“. Bebeu uma golada de água e continuou: ”Ora, a política é uma luta dos fortes contra os fracos e eu, porque sou livre de escolher, entre uma rosa e um bloco...”. O Braz dos Kiwis que assistiu à apresentação, compôs logo esta inspirada quadra: Nasce a rosa junto à relva/Mas desfaz-se num momento/E por isso o Santos Selva/Foi pró bloco... de cimento!
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