O passado e o presente...
Um dia destes, nos Correios, abeirou-se de mim um senhor que me não lembrava de conhecer. Pensei que o retrato aqui por cima, no jornal, fosse o responsável... Ou, “caramba, isso é que é veneno!...”, ou “nunca as mãos lhe doam!”. Enquanto não levar uma ripada nas costas - como já me disseram...- gosto sempre que venham falar comigo, até porque sinto de todos os meus conterrâneos a simpatia que sai que muitos deles têm por mim. Sem excepção, da minha parte. Afinal, nem uma coisa nem outra. O até agora desconhecido perguntou-me se eu não era irmã do dr. Carlos de Mello. IRMÃOS: Tinha feito em Goa a tropa com ele e o seu exemplo levara-o a não esquecer o camarada de armas. “Eu era furriel e ele oficial superior, mas que convivência, amiga! Então quando lhe disse ser natural de uma das freguesias de Águeda, tirando os obrigatórios galões e continências, “irmanámo-nos!”. Que é feito dele?!...". Senti que ficou chocado quando lhe disse que já há muito tinha morrido. E eu, tanto tempo depois, chocada por ter de lho dizer. A tão portuguesa saudade ("esta palavra saudade/quem seria que a inventou/ / a primeira vez que a disse/ /concerteza que chorou"...) bateu-me forte. O Carlos era, dos meus três irmãos, aquele que mais afinidades tinha comigo. Se acrescentar ter sido ele comunista-militante e eu à direita...- sem extremos, que todos os extremos são de fugir! - serão capazes de só acreditar à força... Teve o seu direito a calabouço na PIDE, quando tirava em Coimbra o curso de Direito, que terminou com óptima classificação, e ainda hoje sinto mágoa e remorsos de não o ter ido visitar nessa altura. Resta-me a consolação de ter ele escolhido vir fazer os primeiros dias de liberdade para minha casa, que então vivia em Lisboa. Abracei-o, “descompu-lo”, dei-lhe todos os mimos possíveis nesses breves dez ou quinze dias. Depois da revolução, a nossa fraterna amizade, estranhamente, pareceu ainda crescer mais. CARTAS: Quase toda as noites me telefonava, muitas vezes vinha por aqui passar uns poucos tempos comigo. E falávamos, falávamos, falávamos, que entre nós nunca houve sequer uma palavra azeda. Muitas vezes ríamos das ideias um do outro, as anedotas “ofensivas” andavam de cá para lá, a sua ternura por mim, a minha ternura por ele. Morreu cedo, ao serviço de um município comunista, onde lhe fizeram a vida negra. Tenho guardadas as suas cartas de desabafo. E tenho do meu irmão “comuna” uma saudade que não vai acabar senão comigo e se acende mais forte quando a sua vida volta até mim, através de pessoas que não sabem que já não está connosco. Para quem não interessar, desculpem o desabafo. Há dias assim: a caneta torna-se-nos independentes... POLÍTICOS: Por falar em tempos idos... e neste caso agora, muito muito idos. Tenho comigo um espólio de correspondência que pertenceu a meu avô paterno. Aquilino, Júlio Dantas, Humberto Delgado, Hipólito Raposo, Augusta de Castro...”sortido fino” para quem, na 1.ª República, era republicano, em família com bastante costela monárquica e, na segunda, nunca pertenceu ao então chamado “reviralho”. Todas cartas muito amigas e a reconhecer nele a superior inteligência que o levava à tolerância e amizade que entregava a todas a sorte de amigos. De Salazar, alguns cartões a pedir que se não desligasse da Câmara Corporativa, cujo trabalho já o enfadava muito, na altura em que pedia substituição. De centenas de outras cartas, a maior parte de gente para mim desconhecida e com letra para “paciência de chinês”, tenho andado eu e a minha filha Paula a tentar decifrar os conteúdos nos poucos tempos livres que ela tem. Das mais diversas proveniências, sobre os mais variados assuntos, quase todos políticos, e, portugueses que somos graças a Deus... cunhas que davam parar encher um cesto vindimeiro!... Portugueses que somos, graças a Deus, acabo de dizer... EÇA: As obras de Eça são intemporais, dizemos todos... O país está outro, para o mal e para o bem, digo eu. Mas em muitas coisas... igual. De uma carta de 8-1-1919: (...) destesto cada vez mais esta política presente. Todas ávidos de exteriozação destinada apenas a escondidas ambições e boçais interesses...”. De data incerta, de 1918: “(...) neste mundo a política só dá trabalhos e desgostos; é bom saber conhecer esta cambada, pois que não tardará muito que parte deles lhe batam à porta... De 1918, ainda: “(...) Creia que eu dava tudo, se preciso a própria vida para pode escarrar-lhes (?...) na cara. O tempo se encarregará do assunto!.. Não conseguimos, nem com lupa decifrar os nomes dos autores das missivas. Nem qual o contexto e os apontados neste descontentamento bravo... Portugal nunca foi fácil de “aquietar” e muito menos de contentar... P.S. - Ao pé do destempero do naco da última carta o dr. Augusto Santos Silva parece um “anjo”...
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