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Quando a Secretária de Estado chegou estavam as mesas depenadas

por Redacção Soberania em Dezembro 03,2008

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Alguns notáveis de Belazaima vestiram-se segundo as usanças serranas, calças de burel, camisa de flanela grossa, lenço tabaqueiro ao pescoço, capuchinha na cabeça e tamancos nos pés e rumaram do aeroporto internacional do Casarão onde os esperava um avião dos pequenos.
“Vamos até ao Algarve, à Guia, irmã da nossa terra”,  informou o Manuel Farás. “Nós levamos de cá o frango e eles dão lá o molho...”.
O José Carlos Filippers amarrou uma faixa de pano à cauda do avião com os dizeres: “Abaixo o Ministro”.
”Quem é o ministro?”, perguntou o Óscar do Ribeirão, presidente do aeroporto.
“Se ler tudo, sabe quem é...”,  respondeu o Vasco Presidente. E disse: “ Também lá está escrito, “acabem-se o desenganos, paguem a indemnização dos nitrofuranos”.
“Andam-nos a prometer a indemnização e nada! Assim, vamos à Guia visitar os nossos amigos que têm o mesmo problema e aproveitamos a presença dos media que lá estarão à nossa espera E depois de comermos e bebermos, vamos sensibilizá-los para uma jornada nacional de luta”, assegurou o Vasco Presidente, de olhar bem fixo grave.
“É verdade, até já pedimos emprestado o estandarte da Confraria das Almas que tem um galo bordado”, acrescentou o José Carlos Filippers, a fumar um cigarro antes de entrar no avião.
“Eles começam a fazer barulho lá em baixo, a berrar e a bater com paus no fundo dos tachos”, acrescentou o Óscar dos Mosaicos. E mais. “Nós cá em cima também vamos fazer o barulho que pudermos. Depois eles vêm por aí acima e nós vamos por aí abaixo em marcha lenta e o País fica sem frango...”.

*** * ***
Com espírito revivalista  e saudosista, juntaram-se em S. João da Madeira os ferroviários da Linha do Vouga. Alguns ainda eram do tempo das caldeiras a lenha e a carvão e que inçavam de fumo os sítios por onde passavam. Assim se juntaram centenas de maquinistas, fogueiros, agulheiros, factores, bilheteiros, revisores e chefes de estação.
Engalanou-se a sala, enfeitaram-se as mesas, mostraram-se os acepipes e esperaram, para começar o repasto, que chegasse a  Secretária de Estado, que lhes deu a honra da sua presença. Passaram algumas horas a olhar para a comida, cheios de fome, mas sem lhe poder tocar.
”Isto é como o sacrifício de Tântalo”, dizia o Zé Madeiral, aborrecido: -”Estão ali uns bolinhos de bacalhau e aquele presunto armado, ia já tudo, com um tinto do Dão da  minha lavra...”.
“Eu sou diabético... Não posso estar tanto tempo sem comer, desculpem mas vou atacar!”, gritou uma voz, lá de trás.
Ao dizer isto, aproximou-se da mesa e começou a comer, com voracidade, uma perna de perú. Ao verem aquilo, todos avançaram de rompante sobre as mesas  e almoçaram.
Quando a Secretária de Estado chegou, estavam as mesas depenadas. Um ferroviário pegou no microfone, fez um discurso e disse a concluir:
”Nós somos ferroviários pontuais, não gostamos de atrasos, mas mesmo assim, estivemos horas à espera até que alguém apitou e deu a partida. V. Exª., Senhora Secretária de Estado, chegou tarde e perdeu o comboio! Agora se quiser comer alguma coisa, tem que se dirigir à carruagem-bar!...”.








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