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Prata de Praga para Orfeão de Águeda

por Paulo Sucena em Dezembro 03,2008

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“Praga não nos largará…
esta mãezinha tem garras.”
(em Franz Kafka par lui-même)

Foi na capital de um país cheio de história que o Orfeão de Águeda cantou, num concurso de grande qualidade e exigência.
Actuou ainda, escasso tempo depois, numa das belas igrejas barrocas de Praga. Só depois os orfeonistas e as orfeonistas se deliciaram ao percorrer uma cidade tão barroca que nos oferece surpresas em cada esquina, em cada praça, em cada rua. Admirar, admirar, admirar a cidade é assim a excessiva, barroca constante que percorre as horas de quem a visita. Durante três dias por ela passaram, demorados e atentos, os olhos dos que guardam na memória o suave deslizar do rio Águeda e o tumultuoso curso das suas águas nos dias em que a chuva cai intensamente e derrete a neve do Caramulo, mas também olhos onde moram o verde dos campos de Águeda, aconchegados por suaves colinas, e a inigualável luz de Agosto tombando, ao fim da tarde, sobre os salgueiros reclinados nas margens do rio.
Todos visitaram o Castelo de Praga, alguns mais extasiados que outros, perante o deslumbrante panorama da cidade que dali se pode fruir. Depois foi a descida da longa escadaria que se abre a sudeste do castelo e a continuação da caminhada por ruelas, ruas e avenidas até Malá Strana, onde se ergue uma jóia da arquitectura barroca que é a Igreja de S. Nicolau. Pouco tempo depois, percorrendo ruas e praças, sempre com algo inesperadamente belo, chega-se à Ponte Carlos (século XIV). Não há ninguém que não venha impregnado da atmosfera barroca que ressuma de palácios, igrejas e conventos que faz de Praga uma cidade única. Atravessada a Ponte Carlos, entra-se em Staré Mesto, a cidade antiga, na margem direito do rio Moldava. A sua “Praça Velha” é um lugar de passagem obrigatório e nela cantaram os orfeonistas de Águeda, erguendo suas vozes entre edifícios e palácios (do séc. XIV ao séc. XVIII), sob o alto silêncio das torres góticas da Igreja de Pyn.
Depois, alguns beberam vinho quente na Praça Velha, outros observaram a casa onde viveu, na infância, o notável escritor Franz Kafka ou sorriram com as imagens dos santos a saírem dos seus ocultos lugares para virem “saudar” os que, na rua, olham o relógio da velha capela a bater as horas.
Para mim, Praga era tudo isso e mais a cidade onde nasceu Rainer Maria Rilke, esse excepcional poeta, que tanto marcou a minha juventude, cujo nome foi também dado a um restaurante - é a poesia na rua, à mão de todos, é a própria substância poética, através do nome do poeta, a pulsar na vida da cidade.
Dele voltei a lembrar-me, não quando assisti, atrás do júri do concurso, à magnífica prestação do Orfeão de Águeda, iniciada com a “Canção de Embalar”, de Zeca Afonso, espantosamente recreada pelo Maestro Paulo Neto, com um inteligente e sensível aproveitamento de todos os naipes. Comovi-me intensamente ao ouvi-la e assim me mantive até à explosão de alegria, muito bem conseguida, com a magnífica e singular interpretação de “Merry Christmas”; também não me lembrei de Rilke, quando via passar Águeda pelas ruas de Praga, uma Águeda intensa pela alegria da participação num festival daquela grandeza, mas também tensa porque o resultado do concurso só se soube na noite de sábado que cresceu prateada para o Orfeão; lembrei-me de Rilke quando, no avião, deparei com o cansaço e os traços que as vivências e as experiências deixaram no rosto do Maestro. Paulo Neto trabalha por amor à música e tem sabido transmitir esse amor aos coralistas. Não do amor à música mas à poesia, escreveu Rilke: “Por amor de um verso têm que se ver muitas cidades, homens e coisas, têm que se conhecer os animais, tem que se sentir como as aves voam e que se saber o gesto com que as flores se abrem pela manhã. É preciso ter recordações de muitas noites de amor, das quais nenhuma foi igual a outra, de gritos de mulheres no parto e de parturientes leves, brancas e adormecidas que se fecham. (…). E também não é ainda bastante ter recordações. É preciso saber esquecê-las quando são muitas, e é preciso ter a grande paciência de esperar que elas regressem. Pois que as recordações ainda não são o que é preciso. Só quando elas se fazem sangue em nós, olhar e gesto, quando já não têm nome e já se não distinguem de nós mesmos, só então é que pode acontecer que, numa hora muito rara, do meio delas se erga a primeira palavra de um verso e saia delas”.
Creio que Paulo Neto estará de acordo com o Poeta, por isso direi que pelo amor ao canto, pela sua devoção e trabalho, pode um dia erguer-se das vozes do Orfeão de Águeda uma melodia em cujos acordes penda uma medalha de ouro, como se fora o verso de que Rilke falava. Paulo Neto e o Orfeão merecem-no. E o que resta de Águeda - Alma também. n P. SUCENA

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