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Era uma vez: toquem as sirenes porque há crianças a sofrer....

por padre Manuel Armando em Novembro 20,2008

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Tentar escrever sobre as crianças, que não são as pessoas adultas em miniatura, é arriscar-se a enveredar pelo mundo do incógnito sem prever qual a saída que nos espera a cada um. Elas constroem uma vida à parte, na maneira de pensar e de sentir os mais ínfimos pormenores de uma existência que tanto aparece radiosa, como encobre problemas complexos de solução impossível ou, pelo menos, extremamente difícil.
Os mais pequenos são potências, muitas vezes escondidas, capazes de rumarem pelos mais diversos caminhos de actuações. Tanto se encolhem num mutismo feroz, não permitindo a expropriação do seu terreno social e psicológico infantil, como extravasam, sem limitações, quanto lhes ocupa a alma. Tanto tomam o partido da irrequietude e da alegria, como, também, aprofundam sentimentos de angústia e de incomplementaridade. São um manancial riquíssimo a jorrar diversas maneiras de ver as coisas sobre as quais os adultos se tornam inábeis para esventrarem as verdades ou os modos imaginativos delas, crianças.
Estarmos atentos a estas riquezas indescritíveis é aprendermos a ver a vida com outros olhos e sensibilidade diferente; é, de certeza, abrirmos novos horizontes e abarcarmos a existência no seu âmbito mais global e abrangente de tempos, lugares e pessoas.
É certo que o crescimento físico tem sempre as suas etapas próprias e concertadas, mas, mesmo assim, há uma determinada osmose entre todos nós, os humanos, mais novos ou mais adultos, que nos enriquece reciprocamente, e nos dá uma perspectiva mais correcta do como percebermos diversos sintomas ou sinais desta vida sobre a qual, em múltiplas ocasiões, nos permitimos adormecer para não arcarmos com as inerentes responsabilidades.
Quero, agora e desta forma escrita, penitenciar-me pela descuidada atenção que prestei, em certa ocasião, a quem me interceptou na busca de uma resposta séria para uma ansiedade que não era passageira, mas fruto de tempos e carências as quais ainda não tinham obtido correspondência adequada e satisfatória. O facto quero contá-lo com singeleza, mas com a amargura de quem se acha impotente para fazer seu o estado de alma de outro alguém.
Pois ERA UMA VEZ…, não há ainda muito tempo, quando os dois garotos, que não andariam muito longe dos sete ou oito anitos, entraram pelo cemitério adentro e, com ares intranquilos de quem deseja encontrar o seu maior bem, me perguntam onde se encontraria… (aqui me nomearam a pessoa que procuravam). Não repito a minha resposta, quando julguei, pois, estarem a mangar comigo e ripostei como se tal assim fosse. Enganei-me, pois, de seguida, vim a entender que o mais novo ansiava saber onde havia sido sepultado o corpo de seu pai o qual morrera uns dias antes. É que os outros, a restante família, esconderam desta criança a realidade e ela sentiu-se por isso. Vinha, naquele momento, e, aproveitando a distracção dos tais outros, prestar, com a sua presença furtiva, uma singela homenagem ao seu progenitor que partiu sem que tivesse havido um adeus mútuo. Foi informado sobre o local exacto onde se encontraria o que procurava: o corpo, sem vida, de seu pai.
Nada trazia consigo para lhe deixar senão a sua dor e uma ténue esperança de que tudo aquilo que soubera, por linhas travessas, não fosse a realidade certa, ou não passasse de uma fantasia.
Naquele momento quase lancinante, alguém, condoído pela cena patética e, perscrutando aquela dor vivida com a intensidade de filho enganado, entregou uma simples flor que o menino aceitou, para a depositar sobre a pedra fria da tumba. Aqueles olhitos de criança quase se incendiaram e foram sinal de uma gratidão natural sem limites.
O outro garotito justificou, também ele, a sua presença junto do amigo. Desde então, não mais quis despegar-se dele pois, na Escola, numa criancice inconsciente, os outros vários colegas haviam brincado com o companheiro dorido porque estava, agora, mais pobre pelo desaparecimento daquele que, ainda, tempos antes, lhe servia de escora nas dificuldades. Então explicava este seu acompanhante que estava disposto a andar com ele para lhe minorar a sua mágoa, uma vez que, também ele próprio, sofrera, pouco tempo atrás, uma outra “morte” na sua casa: a separação dos seus pai e mãe, facto que o trazia muito angustiado e inseguro, sem descortinar como seria a sua vida nos futuros mais próximos.
Ora, aqui estão duas situações de morte e dor vividas em uníssono e a fazer-nos parar e olhar uma sociedade onde o penar das crianças exige sinais de alerta para que não se deixem a sofrer aqueles que vão crescendo sem saberem onde e em quem hão-de apoiar-se.
Há que fazer soar todas as sirenes para incomodar os ouvidos de todos os mais responsáveis porque o problema é de uma acuidade e urgência prementes. n PMA

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