A solidariedade dos mais pequenos
Não podemos deixar passar desapercebidos os episódios e tempos que envolvam crianças, sob pena de parecer não nos importarmos delas, nem darmos conta da verdade e daqueles seus sentimentos lineares que nunca encobrem quaisquer subterfúgios ou auto-defesas, mas se apresentam com grande simplicidade e clareza. Os actos provindos da imaginação dos pequeninos são como as águas límpidas de um rio. Eles deixam ver o mais belo fundo do ser humano. Jesus acautelava para o facto de alguém ousar escandalizar as crianças com palavras e em acções, ou as impedir de fazer as experiências positivas, numa aproximação a quem os galvaniza e ensina a realizar o bem em favor de tantas outras pessoas envolvidos nas maiores dificuldades (Cfr. Mc. 10/13-16). Aquilo que os mais pequenos pensam, dizem-no e o que dizem, fazem-no e o que fazem é o que sentem ou experimentam por si mesmos, sofrendo na sua pele, muitas vezes por causa da maldade de homens e mulheres mais avançados na idade adulta e, ainda, pela injustiça das comunidades e suas instituições formalizadas. Os adultos acusam os pequenitos porque são uns papagaios a repetirem tudo o que ouvem ou vêem. E, realmente, é verdade que traduzem tudo com muita propriedade, fidelidade e sinceridade. “Ex parvulorum veritas” (leia-se: “a voz dos pequenos fala mais alto”), diz o aforismo tradicional. O Livro dos Salmos, no Antigo Testamento, repete esta mesma afirmação e o próprio Jesus Cristo aproveitou a presença dos mais pequenos para assegurar que a Salvação está reservada aos que se tornem como eles, pois, de imediato e sem grandes dificuldades, descobrem onde se encontra a verdade e a justiça (Cfr. Mt. 18/1-4). Quem há por aí capaz de impedir uma criança de subir ao armário a buscar o que estava bem escondido pelos maiores, pondo a descoberto a insensatez ou distracção de quem deveria estar mais avisado e consciente?! Mesmo quando os gaiatos parecem estar somente embrenhados nos seus devaneios pueris e distraídos, logo saltam em socorro das suas coisas ou das pessoas mais amigas. Demonstram um espírito de solidariedade diferente dos adultos; mais acutilante, mais generoso e verdadeiro. Todavia, corre-se o risco de se perder o exercício destes valores quando os seus maiores os desincentivam com palermices e ligeireza de atitudes ou conversas impensadas, em momentos tão importantes e cruciais como o é o seu crescimento para a vida activa e comunitária. E o caso, agora, conta-se em dois pequenos parágrafos. Entre linhas, ficará o sumo que torna mais apetitosa a circunstância. A pequena multidão vociferava, acusava, amesquinhava, destroçava, desdenhava, gritava animalescamente, subjugava a cabeça sob o olhar de quantos imaginavam ter poder de autoritarismo, remetia-se à cobardia e à maledicência, espumava infundados rancores e desejos de vingança por algo que não havia acontecido. Diga-se que era uma turba desvairada ou desmiolada. No centro, um réu, sem advogado de defesa nem possibilidade de mobilizar testemunhas em seu favor, porque essas, as possíveis e sabedoras da verdade, também se passaram para o outro lado, ou não tivessem um emprego a defender, com poltronaria e medo de quaisquer represálias. Mas, aquela criança, ciente da verdade, não podendo erguer a sua voz nem a sua pessoa, vence o embaraço da confusa multidão, vem junto da personagem ultrajada e ofendida e entrega-lhe todo o apoio de que pôde dispor, naquele momento difícil e angustiante. “Toma, é para ti, não fiques triste; eu gosto muito de ti”, disse a criança, estendendo-lhe a mãozita e, nela, duas moedas de um cêntimo. Perplexa, a vítima de toda aquela sanha raivosa, sentiu a coragem de quantos se apresentam indefesos mas que encontram grande força nos pequenos gestos dos mais humildes. Podemos imaginar o resto. Pela minha parte, quero dizer àquele petiz: “Obrigado pelo teu gesto de solidariedade. Gostava, eu também, de copiar a tua pureza, os teus sentimentos, a intuição pelo sofrimento de quem se vê, dolosamente, envolvido no meio de algozes, a tua atenção e o teu desejo de justiça para todos; no teu coração mora o sentido perfeito da verdade. Não o percas nunca”. n MANUEL ARMANDO
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