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Papadopulus português

por Manuel José Homem Mello em Novembro 13,2008

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As recentes declarações proferidas pelo senhor general Loureiro dos Santos tiveram o condão de despertar a velha cobiça militar para assumir o poder civil.
Na verdade, ao longo da História - quer nossa, quer alheia - não tiveram conta os movimentos castrenses registados em busca da hegemonia política. Só com o despertar democrático é que se conseguiu reconhecer o princípio da superioridade do poder civil sobre o militar.
or mais que procurem disfarçar, acaba sempre por ser indisfarçável o apetite dos militares pelo poder civil. E sempre que se lhes depara o,ensejo, ameaçam mesmo não veladamente a possibilidade de desembainhar as espadas e de colocar os «chaimites» na rua. Isto acontece desde tempos imemoriais, embora progressivamente atenuado, a partir da consolidação do sistema democrático ou, para sermos mais realistas, a partir da aceitação do voto como fonte da legitimidade do poder, conforme acima referi.
Afastados da política - ainda que a duras penas - algum tempo depois do 25 de Abril surgem agora, pela voz do general Loureiro dos Santos, a reivindicar privilégios e regalias injustificáveis, a menos que a carreira militar não fosse um modo de vida, como deve ser.
Embora já muitos se tenham esquecido, a Grécia sofreu um golpe de Estado castrense que colocou no poder o general Papadopulus, golpe de que resultou também a queda da monarquia.
Todos nós sabemos que lavra pelo nosso país uma onde de descontentamento, porventura ainda maior do que muitos julgam. São os juízes, os professores, os enfermeiros, os pescadores, sei lá mais quem, que descem à rua com uma pertinácia e uma facilidade de mobilização como raras vezes se tinha verificado depois de Abril de 74. Há que reconhecer que a maioria absoluta, obtida pelos socialistas nas últimas legislativas, vai ser de muito difícil confirmação. E se, ao fim e ao cabo, perderem essa maioria será bem mais por culpa própria do que alheia.
É claro que o senhor general ameaçador sabe perfeitamente que a integração de Portugal na União Europeia coloca o país fora do âmbito de qualquer aventura golpista consistente de carácter militar. Nem é de crer que o senhor general Loureiro dos Santos aceite, ou assuma, a «candidatura» à Papadopulus. Mas o bom senso nem sempre consegue impor-se, provocando reacções de molde a fragilizar e a regularidade e consistência do sistema democrático. Por pior que seja o actual estado das coisas, o que está, será sempre preferível a uma aventura militar.  
Talqualmente de Espanha nunca virá bom vento nem bom casamento, também dos nossos quartéis não poderá vir solução diferente daquela que nos liberte da megalomania de uns tantos que continuam a sonhar, à direita, com um novo 28 de Maio, e, à esquerda, com outro 25 de Abril. Antes de voltar a perorar, o sr. general Loureiro dos Santos deverá ter presente a célebre declaração do Lyautry que teve a ombridade de dizer aos soldados sob seu comando que “a glória do serviço militar, incumbe àqueles que também são capazes aceitar as respectivas servidões”.


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