O que valeu na televisão foi a beleza e a telegenia da Excelsa da Corga
O Joaquim da Trigal, sportinguista empedernido, não cabia dentro da pele, estava tão contente que até ofereceu um carioca de limão a todo o pessoal. Chamou a Guida do Gravateiro, portista ferrenha e com a tristeza a meia haste, que tem a desdita de ter a sede do Benfica no rés-do-chão da sua casa e disse-lhe, desdenhoso, com escarninho e com sorriso bilioso: - Então, não houve lá nem um pio? - Eles ainda gritaram uma vez, quando o Benfica meteu um golo - respondeu a Guida - mas depois calaram-se que nem ratos. No fim, fui à janela só para os acirrar e disse-lhes que nos tinham roubado dois penalties! - Por falar em roubar… - interrompeu a Céu Fora de Jogo, também empregada na Trigal, que estava a olhar para o exterior - tiraram o porco ali da rotunda! - Tiraram o porco desta rotunda e os das outras! - disse o Egberto das Canas - isto não foi senão gente da Mealhada, eles dizem que lá é que é o berço do leitão e a festa genuína! Mas o leitão nasceu aqui, o leitão é nosso, é de Águeda… O Brás dos Kiwis coçou a cabeça, meteu a fralda para dentro das calças e disse: - Os porcos não fazem cá falta nenhuma, porque a festa vai começar e até já foi anunciada na televisão... - O que nos valeu lá na televisão foi a beleza e a telegenia da Excelsa da Corga - exclamou o Lenine de Falgoselhe - porque apareceu lá um designado assador de leitão a dizer que o leitão se deve comer com batatas fritas de pacote, misturado com pastéis de Águeda e com fusís da ti Libânia! - Parece impossível! - interrompeu, com veemência, o Dr. Joaquim da Confraria - o leitão come-se sempre com batata cozida! Mas, no ano passado, ainda foi pior, quiseram mostrar aí uma monstruosidade gastronómica, o gelado de leitão, uma mistura explosiva de açúcar com pimenta e leitão moído! Eu verberei esse disparate, fui contestado, mas depois deram-me razão! *** * *** Em Recardães o poder está ameaçado! A oposição rosa veio para a rua com cornetas e bandeiras policromáticas e até parecia que numa delas estava escrito “bota abaixo”. Por pouco que não foi declarado o estado de emergência. O Mar Oceano, antigo autarca e porta-voz dos críticos, explicou a causa do movimento: - Quando eu fui presidente é que havia democracia e abertura, não era como agora! Sempre respeitei os ditames e recomendações da oposição, nunca fui autocrata nem mandei sozinho. Até para comprar um carro-de-mão reunia a assembleia. Agora - continuou o Mar Oceano, visivelmente irritado - só manda quem está no topo…Pois então que mande sozinho, que nós vamo-nos embora! E foram!
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