…Um estimado pregador
Que subiu à sua tribuna
Para falar dos bons frutos do amor
E dos bens de espiritual fortuna.
Que o espírito de todos estivesse atento
E o coração bem aberto,
Pois chegaria o grande momento
De conhecer o errado e o certo.
Ensinou a doutrina sagrada
Da Palavra e da Graça divina,
Da escolha entre o tudo e o nada
E do pecado que Deus abomina.
Com entusiasmo sempre crescente
E bem convencido o pregador
Disse que o mundo sempre mente
A quem recusa a voz do Senhor.
Diante de si, em aparente calma,
Homens e mulheres com muita atenção
Pareciam querer alimentar a alma
Nos caminhos do bem e do perdão.
Ouviram-no louvar a Deus pela natureza:
Pelo vento, chuva e pelo sol quentinho.
Diante de si, um beberrão
perguntou, com destreza:
- E o vinho?
Não se deixou incomodar e prosseguiu
Com palavras que cada um pôde entender,
Falando de tudo o que, jamais, alguém ouviu.
E um bem falante interrogou, porque se sentiu:
- E o prazer?
Impávido e sereno, continuou
A meditar num Céu em que sempre acreditou;
Pelo que outro janota ripostou,
Com ar arrogante e desconexo:
- E o sexo?
Sem desânimo, e de confiança inundado,
Disse que Deus seria para todos o descanso.
Mas ouviu do rapaz que estava ao lado:
- Eu não fico assim tão manso…
Ora, se o que diz não são lérias,
Pois, então, onde estão as férias?
Não se agastou o bom do
pregador;
Fez por não entender aquela falsa dor,
Quando se adiantou um outro, com ar de faia
A querer perguntar: - no Céu há praia?
Com paciência o prudente pregador
Não entrou na confusão
Daquele que perguntou, à zaina:
Onde e como faremos lá nossa taina?
Tudo se tornou muito embru- lhado.
Os bens de Deus foram esquecidos.
Mas a pregação voltou ao que havia sido pensado
E recordou os divinos dons prometidos.
Quando nada fazia já prever,
Todos tudo queriam saber.
Armou-se enorme alvoroço;
Até um rapaz, ainda bem moço,
Perguntou com voz de catarro:
- Onde irei estacionar o meu carro?
Imagine cada um a confusão
Dos ouvintes com olhos de fogo
A questionar sobre o jogo
De futebol
Ou de dinheiro…
Parecia querer cair do céu o Sol
E desabar o mundo inteiro.
E, para terminar esta imensa procissão,
Entra, de rompante, um homem que, sem pataco,
Pergunta, interrompendo a oração:
- Onde se vende lá o tabaco?
Calmo, mas muito agastado
Por este mau bocado
O afamado pregador
Deu largas à sua dor
E quase chorou, desiludido
Por ver o seu sermão sem sentido.
Ele a apontar caminhos de salvação
E a matéria a cegar a multidão.
Então, num arroubo firme e para terminar,
Desabafou esta oração de valor eterno:
- Ide vós para o inferno
E que Deus a mim do pecado me proteja.
Ao que todos, à uma, responderam:
Amén! E que assim seja.