Ou... o que pode cegar
Aug 27,2008 00:00 by Pe. MANUEL ARMANDO

…Um estimado pregador
Que subiu à sua tribuna
Para falar dos bons frutos do amor
E dos bens de espiritual fortuna.
    Que o espírito de todos estivesse atento
    E o coração bem aberto,
    Pois chegaria o grande momento
    De conhecer o errado e o certo.
Ensinou a doutrina sagrada
Da Palavra e da Graça divina,
Da escolha entre o tudo e o nada
E do pecado que Deus abomina.
    Com entusiasmo sempre crescente
    E bem convencido o pregador
    Disse que o mundo sempre mente
    A quem recusa a voz do Senhor.
Diante de si, em aparente calma,
Homens e mulheres com muita atenção
Pareciam querer alimentar a alma
Nos caminhos do bem e do perdão.
    Ouviram-no louvar a Deus pela natureza:
    Pelo vento, chuva e pelo sol quentinho.
    Diante de si, um beberrão     
    perguntou, com destreza:
        - E o vinho?
Não se deixou incomodar e prosseguiu
Com palavras que cada um pôde entender,
Falando de tudo o que, jamais, alguém ouviu.
E um bem falante interrogou, porque se sentiu:
- E o prazer?
    Impávido e sereno, continuou
    A meditar num Céu em que sempre acreditou;
    Pelo que outro janota ripostou,
    Com ar arrogante e desconexo:
    - E o sexo?
Sem desânimo, e de confiança inundado,
Disse que Deus seria para todos o descanso.
Mas ouviu do rapaz que estava ao lado:
- Eu não fico assim tão manso…
Ora, se o que diz não são lérias,
Pois, então, onde estão as férias?
    Não se agastou o bom do
    pregador;
    Fez por não entender aquela falsa dor,
    Quando se adiantou um outro, com ar de faia
    A querer perguntar: - no Céu há  praia?
Com paciência o prudente pregador
Não entrou na confusão
Daquele que perguntou, à zaina:
Onde e como faremos lá nossa taina?
    Tudo se tornou muito embru- lhado.
    Os bens de Deus foram esquecidos.
    Mas a pregação voltou ao que havia sido pensado
    E recordou os divinos dons prometidos.
Quando nada fazia já prever,
Todos tudo queriam saber.
    Armou-se enorme alvoroço;
    Até um rapaz, ainda bem moço,
    Perguntou com voz de catarro:
    - Onde irei estacionar o meu carro?
Imagine cada um a confusão
Dos ouvintes com olhos de fogo
A questionar sobre o jogo
De futebol
Ou de dinheiro…
    Parecia querer cair do céu o Sol
    E desabar o mundo inteiro.
E, para terminar esta imensa procissão,
Entra, de rompante, um homem que, sem pataco,
Pergunta, interrompendo a oração:
- Onde se vende lá o tabaco?
    Calmo, mas muito agastado
    Por este mau bocado
    O afamado pregador
    Deu largas à sua dor
    E quase chorou, desiludido
    Por ver o seu sermão sem sentido.
Ele a apontar caminhos de salvação
E a matéria a cegar a multidão.
    Então, num arroubo firme e para terminar,
    Desabafou esta oração de valor  eterno:
    - Ide vós para o inferno
    E que Deus a mim do pecado me proteja.
Ao que todos, à uma, responderam:
Amén! E que assim seja.