O nariz de Cleópatra
(*) (S’il eût été plus court, toute la face de la Terre aurait changé) Pascal
A História é o estudo e a descrição dos acontecimentos ocorridos ao longo de determinado período de tempo. Contudo, para ser História, no sentido técnico da palavra, é essencial que sobre esses acontecimentos tenha já decorrido tempo suficiente, de modo a permitir que a análise seja tanto quanto possível objectiva e, portanto, desapaixonada. Quer isto dizer que a História tem de ser intransigentemente fiel ao que efectivamente aconteceu, sob pena de não passar de fantasia ou ficção. Poderá, quando muito, ser um arremedo de «ensaio histórico», mas História é que não será com certeza. Ora o que tem acontecido comigo é que, quanto mais tempo vai passando, mais em mim se radica a convicção de que a política ultramarina traçada por Oliveira Salazar, coadjuvado primeiramente por Paulo Cunha e, logo depois mas sobretudo, por Franco Nogueira, merece ser apontada e considerada (à ilharga de Alcácer Quibir) como um dos maiores, se não mesmo o maior dos erros por nós até agora cometidos. A verdade, porém, é que o passado é o que foi e não o que poderia e muitos desejariam que tivesse sido. Neste caso, querer não é o mesmo que puder, como consta do ditado popular. Quando Pascal escreveu que “se o nariz de Cleópatra fosse mais curto, toda a face da Terra seria diferente”, não pretendeu dizer mais do que isto: o decurso dos acontecimentos esteve sempre ligado ao acaso das circunstâncias mas a realidade do que aconteceu não impede que, por vezes, deixemos de dar largas à fantasia, sonhando e acordando (desesperados e alvoroçados) com o que poderia ter sido e afinal acabou por não ser. Comecemos, então, pelo que na realidade aconteceu. Por aquilo que foi. Para depois darmos largas à fantasia, sonhando com o que poderia ter acontecido se outro fosse o tamanho do Nariz de Cleópatra… Bem se poderá reconhecer e dizer que o século XX foi testemunha de alguns dos mais significativos e relevantes acontecimentos que a História do percurso humano regista. Se dermos uma rápida vista de olhos pelo que aconteceu, fosse além ou tivesse sido aquém-fronteiras poderemos, fixar como factos mais relevantes ocorridos naquele período de tempo os seguintes: As duas Grandes Guerras, a revolução soviética, o ocaso do colonialismo, a descoberta e utilização da energia atómica, tanto para fins pacíficos como militares; o estonteante progresso tecnológico e a expansão do fanatismo religioso. Apesar da sua exiguidade demográfica e territorial e da escassez dos seus recursos, Portugal esteve presente e até participou em alguns: significativamente, no desabar do colonialismo, mais modestamente na 1ª. Grande Guerra, logrando tomar posição e participar como se fosse uma grande potência no concerto das nações mais ricas e mais poderosas. Governado ao longo de mais de meio século – de Maio de 1926 até Abril de 1974 – senão pelo mesmo homem, ao menos por idênticos princípios, não sendo exagerado considerar, como um dos mais conservadores de sempre o regime iniciado em Maio de 26 e logo depois protagonizado por Oliveira Salazar, o Estado Novo (!!) procurou adiar o seu agiornamento até ao limite máximo da sua capacidade de resistência. Reunindo, como nenhum outro, condições ímpares para aceitar, quiçá promover o início de uma nova era no relacionamento internacional, acabámos por ser os últimos a partir, juncando de mortos pretos, brancos e mestiços os territórios que dizíamos serem portugueses, na estulta ideia de que seria possível resistirmos e ficarmos para sempre. Pigmeus arvorados em gigantes inseridos no tabuleiro do xadrez geopolítico mundial, começámos por pretender resistir pela força - que, afinal, não tínhamos Salazar sente-se intelectualmente manietado. Na realidade, não sabe ao certo o que deverá fazer. Partir, talvez fosse o mais fácil mas teme que possa ser acusado de abandono de si próprio e de quantos nele sempre acreditaram. Se, ainda, ao menos, a guarnição militar sediada na Índia se mostrasse disposta a resistir e o governador fosse da estirpe dos Albuquerques, Castros e quejandos, cumprindo com heroicidade as missões que lhe haviam sido confiadas, talvez ainda se tornasse possível granjear para a causa portuguesa alguma simpatia e apoio material. Mas resistir em pura perda, sem ânimo nem convicção, como parecia ser o caso do general Vassalo e Silva, seria criar um mártir sem qualquer resultado. Nesse caso que imagem dele, Salazar, reflectiria a História? A de um dirigente que tudo fizera para manter a integridade da pátria ou a do cobarde que consentira na fuga ao confronto? Acaso poderia equacionar a hipótese de sair vencedor? É verdade, sim, que a história regista vitórias heróicas e surpreendentes de pequenos Davides contra monstruosos Golias, ou mesmo exércitos pouco numerosos vencedores de inimigos bem mais poderosos, como aconteceu por exemplo em Aljubarrota, quando um punhado de portugueses comandados por Nuno Álvares Pereira levou de vencida milhares de castelhanos às ordens do irmão, mestre de Calatrava ou também quando meia dúzia de liberais fieis a D. Pedro IV levaram de vencida os vencedores do absolutismo medievo do irmão D. Miguel. (continua na próxima edição)
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