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As nossas férias...

por António Silva em Julho 02,2008

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Já não falta muito para pertencermos ao clube dos septuagenários e, todavia, nunca perdemos tempo a pensar onde fazer férias.
Na nossa juventude, férias não era deitar a barriga ao sol no areal da praia, nem fazer viagens exóticas às Caraíbas.
Férias, era não ir à escola e a nossa praia era o Freixoeiro, só de fugida, porque os nossos pais tinham-nos reservado trabalhos obrigatórios para esse tempo: arrancar as batatas, apanhar os feijões, regar o milho, esparrar as videiras, pastorear as ovelhas ou afugentar a passarada das searas eram algumas, mas não todas, as tarefas que nos estavam destinadas. E não nos sentíamos infelizes por isso, bem pelo contrário. Bem cedo, criávamos consciência de que partilhar desses trabalhos, era experimentar do sacrifício que os nossos pais faziam, para depois, com alegria, partilhar o prazer de comer o pão amassado com o suor do rosto.
Eram tempos difíceis e quem vivia amanhando as terras, para delas tirar o sustento, já se sentia muito feliz quando em cima da mesa havia uma malga de caldo e um naco de pão duro e nem os nossos pais faziam protestos pela vida difícil que tinham, nem nós, apesar de adolescentes, nos sentíamos infelizes por termos que participar nas tarefas mais simples enquanto os mais velhos se ocupavam das lides mais violentas. E, neste capítulo, a diferença entre os filhos dos proprietários, ricos, e os filhos dos rendeiros, pobres, era diminuta. Bastava olhar para os pés deles: os primeiros, nem no verão tiravam as botas. Os segundos, nem no inverno as calçavam. Como era impressionante ver, uns e outros, seguirem o exemplo dos pais!
 As associações de classe nunca reivindicavam ao governo coisa nenhuma para quem trabalhava a terra, nem os direitos humanos entendiam como exploração infantil as tarefas menores e simples executadas pelos jovens, bem pelo contrário, sempre que estivessem de acordo com a sua idade e compleição física, eram tomadas como lições de vida. E, com a ajuda de todos, tudo era cultivado, dos largos campos às leiras mais apertadas, mesmo aquelas onde não podia entrar uma junta de bois.
De repente, surge a evolução industrial e com ela a redução da mão-de-obra nos campos. Paralelamente, inventou-se esta coisa tão extraordinária quanto estúpida:
considerar exploração infantil, e até crime, o trabalho dos adolescentes, mesmo daqueles que têm idade e corpo para fazer, e alguns fazem mesmo, toda a espécie de disparates!
 Entretanto, determinam alguns anormais que nos governam: os pais são responsáveis pelos disparates dos filhos, mas não pela sua educação!
Para completar o triste quadro, criaram-se mecanismos que pagaram aos agricultores para não produzirem, leite, carne, vinho, cereais, etc. E quem ultrapassou as quotas, foi mesmo penalizado.
 Ora, será justo pôr limites de produção aos produtos em que o país é deficitário? Para sobreviver, teremos que comer aquilo que os nossos parceiros europeus produzem, enriquecendo-os, enquanto nós ficamos cada vez mais pobres e com quase tudo ao abandono?
E agora, que perdemos o hábito de trabalhar as terras e que os donos do petróleo tomaram consciência de que podem, finalmente, fazer ajoelhar o ocidente a seus pés, resolvemos fazer o bio-diesel, combustível substituto do petróleo, produzido a partir de cereais. Cereais que nós já não produzimos, nem para comer. Comemos o arroz da Tailândia, da Birmânia, do Vietname, etc., mas como os orientais perceberam que o arroz é a sua galinha dos ovos de ouro, zás, aumentam os preços. A velha lei da oferta e da procura a atingir bens essenciais e quem mais sofre são sempre os de mais parcos recursos, que tinham nos cereais, um produto acessível, a base da sua alimentação!
Nós, de lição em lição, não tarda muito vermos o Vale do Cértima cheio de arroz, o Vale do Águeda de arroz e milho e não estará longe o dia de reaprender a fazer uns carreiros de alfaces, uns leirões de feijões e recriar o hábito de plantar as couves de Agosto.
Há muito que este mundo anda a ser governado por loucos e só agora estamos a perceber isso!


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