Os automóveis e a crise!…
Não gosto de bichas, ou de filas, como agora se diz. Mas uma coisa é não gostar e outra, bem diferente, é não comer. Por isso, tive de engolir uma, bem longa, para atestar o depósito do meu automóvel. Enquanto aguardava, recordei as enormes bichas do início dos anos 70, no tempo da “outra senhora”. E meditei sobre a diferença entre as antigas e as actuais. Em 1973, formavam-se bichas de centenas de carros quando se anunciava que os combustíveis iam subir cinco tostões. E os automobilistas, habituados à poupança, lá iam para a bicha. Num depósito cheio, sempre se aforravam 20 ou 30 escudos, o equivalente actual a dez ou 15 cêntimos. E era ver os condutores, fora das viaturas, a empurrar os carros desligados. Hoje, vai-se para a fila por razões diferentes. Pode o litro de gasolina subir 20 ou 30 cêntimos, podem as gasolineiras aumentar o gasóleo todas as semanas, que ninguém vai para a fila por causa disso. Mas se os automobilistas pressentem que o precioso líquido pode faltar, ou mesmo escassear, é vê-los a correr para as bombas. Não vá ficar comprometida a voltinha do fim de semana. Ou terem de ir a pé ao café, à mercearia, ou ao supermercado, apesar de estes ficarem a escassos metros de casa. Ou, ainda, terem de ir para o emprego à boleia de um vizinho que, por coincidência, trabalha na mesma empresa e até costuma viajar sozinho. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, como escreveu Camões. E, realmente, muito mudou. A faculdade de Economia da Universidade do Porto, onde estudei, foi inaugurada em 1975. Era um edifício de traça moderna, implantado num amplo terreno, com enormes zonas ajardinadas e um pequeno espaço de estacionamento. Lá parava uma dúzia de automóveis, pertença dos professores mais velhos, e algumas bicicletas. Sublinho dos professores mais velhos porque os jovens assistentes se deslocavam de autocarro, tal como a maioria dos alunos. E eu, porque era da “capital das duas rodas”, ia de motorizada. Pequenina, feiinha, era um luxo a minha Famel! Há pouco tempo passei por lá, para matar saudades. E não gostei do que vi. O que era relva virou alcatrão, o que era um espaço de convívio tornou-se num enorme parque de estacionamento. A pagar, evidentemente. Com seguranças, cartões de acesso e barreiras electrónicas. E estava cheiinho de carros, automóveis por todo o lado. E nem uma bicicleta, nem uma motorizada, nem uma scooter. Não tenho nada contra os automóveis, mas parece-me que a sua utilização individual tem de ser repensada. Com o elevado preço dos combustíveis, com o endividamento crescente, com a ameaça de desemprego, com a ruína previsível do actual modelo social, enfim, com a crise, chegou a altura de mudar de paradigma. O automóvel como nivelador social parece ter os dias contados. E, ou a tendência se inverte, ou brevemente teremos três tipos distintos de automobilistas - os que andam de carro, os que o têm encostado e os que o venderam. - carlos.a.abrantes@clix.pt
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