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Viagem de regresso a África nas "asas" do pensamento

por Alcides Melo em Maio 29,2008

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O batuque, a dança e a tatuagem. Num dos derradeiros dias do mês de Abril, ia alta a noite, pela janela do quarto onde eu dormia no “meu” lugar do Beco, começou  a entrar, puxado pelo vento do quadrante sul, como se de dois passos ao lado viesse, o rufo áspero do tambor de um conjunto musical que abrilhantava uma festança popular, numa povoação da vizinha freguesia de Valongo do Vouga. Tão áspero e sucessivo era o som e o ritmo, que acordei estremunhado.

Assemelhavam-se tanto ao rufar do batuque africano que, confuso, a breve trecho se me afigurou estar a sonhar e, em África, no interior do misterioso e lendário sertão, a ouvir o “tam-tam-tam” a animar uma dança aborígene. Senti-me a viajar nas “asas” do pensamento até à distante época de Julho de 1945, quando cheguei ao ex-Congo-Belga, e, invariavelmente, esse era o cenário de todos os fins de semana, na sertaneja aldeia onde fixei.
Meio adormecido, pareceu-me, efectivamente, estar a viver um desses dias (dos 25 anos que passei naquelas inesquecíveis paragens), de onde dimanaram suavemente memoráveis recordações de inefável enlevo. Tão apetecíveis que o meu pensamento foi “desenterrar” alguns pitorescos episódios, dos quais um dos primeiros se concretizou um mês depois de ali ter chegado, atraído pelo estrepitoso rufar do batuque, na minha visita, por curiosidade, a um bailarico onde fui encontrar semi-nuas (não era novidade, já as havia visto passar na rua...) jovens raparigas, bonitonas (quais imagens em ébano), de corpo esbelto e besuntado de óleo, tórax e abdómen tatuados e que, a dançar, faziam girar voluptuosamente as nádegas. Apesar da beldade das airosas moças, não gostei. Essa esquisita maneira, tão fora dos costumes a que estava habituado, e eu que era uma “criança” de 16 anos recém-chegado de outro mundo, tão diferente, abandonei e fui para casa.
Dei-me por esquecido do factor histórico  que, pelo que já havia lido, eu conhecia que aquele povo, não havia ainda meio século, estava “amarrado” ao primitivismo da selva e que aquela, boa ou má, era a sua cultura. Estava enfastiado, não o fazia por tentação provocante. Desvalorizei o batuque, depreciei a dança e repudiei as tatuagens.
Algum tempo depois, viria a saber que o “fenómeno” era, pelo Congo além, uma característica comum à maioria das suas etnias, por cujas práticas os brancos mais encarniçados, os mais idosos, vomitavam carradas de impropérios, profetizando-o, e isso eu ouvi: “Nunca estas porcarias chegarão às nossas fronteiras!”.
Era esse (e muito mais) o modelo, com um misto de culpa de todos os brancos, que durante muitos anos presidiu ao relacionamento entre as duas comunidades. Distilou-se ódio para além dos justos limites, que não podia fazer augurar-se em toda a África negra um fim auspicioso. Mas quantas vezes pior não teria sido, se o denominador colonizador/colonizado tivesse agido em sentido inverso?!
Dizia a profecia: “Nunca estas porcarias chegarão às nossas fronteiras?”. A verdade é que, menos de meio século depois, a tatuagem, a dança voluptuosa, o batuque, “produto selvagem”, viria marcar presença célebre no reino dos senhores dos impérios e ser recebido com todas as honras e marcar a moda dos seus súbditos. Como os profetas estavam enganados!! Nisso e quanto mais?!

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