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ÁGUEDA: A TARDE EM QUE O RECREIO VENCEU EM ALVALADE...

por AFONSO DE MELO em Maio 08,2008

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De repente, lembrei-me do Pin-cho. Não sei porque diabo me lembrei do Pincho, mas lembrei-me e agora é por aqui que vou escrevendo. Vou escrevendo e lembrando e vem tudo misturado. 1975: o Belenenses ganhou nas Antas por 4-1. Golos de Alfredo, Pincho, Pietra e Alhinho. Aposto que o Gomes Amaro estava lá. O Gomes Amaro relatava os jogos do FC Porto em brasileiro. Sim, em brasileiro. Para mim o brasileiro ganhou independência do português. Também tem direito ao seu grito do Ipiranga.
n TIBI: O Gomes Amaro estava lá, aposto, e nem vou pôr-me para aí a fazer telefonemas para o confirmar. Afinal já lá vão 33 anos. O guarda-redes do FC Porto era o Tibi e o Gomes Amaro gritava: «VAI BUSCÁ, TIBI! Não adjianta chorá...».
Isto foi em Janeiro, lembrei-me. Nesse tempo, o Natal era passado em Campo de Ourique. Quando não estavam em Águeda, o meu avô Joaquim e a minha avó Cândida moravam lá: na rua Francisco Metrass, nº10, 2º Esquerdo. No Natal, o meu tio Óscar gostava que fôssemos com ele a Alvalade. E uma semana antes de o Belenenses ir ganhar às Antas por 4-1, com o Pincho a marcar um dos golos, o Sporting deu 7 ao Olhanense, em Alvalade.
Uma vez escrevi um livro de poemas. Foi apresentado em Águeda, na Casa do Adro, pelo Paulo Sucena. O Paulo Sucena também gostava de ir a Alvalade.Há nesse livro um poema que diz: O cisne preto está parado; a água está suja; os pássaros sem melodias; a saudade sem espaço; eu sem algo em que pense; e os velhos escutam nas velhas telefonias o relato dos golos do Yazalde em Alvalade aos pontapés na defesa do Olhanense.
Eu avisei que vinha tudo misturado. Mas também não tem assim tanta importância, pois não? Em 1975, o Pincho estava no Belenenses. Mas, em 1978 estava no Recreio de Águeda. E, de repente, tão de repente como me lembrei do Pincho, voaram 30 anos. Pincho e Tito Lívio: eis uma bela dupla. O Pincho era de Timor e o Tito Lívio da Guiné Bissau. Em 1978, o Pico Ramelau, em Timor, já não era o ponto mais alto de Portugal com dois mil, novecentos e sessenta metros de altitude. Quando recitávamos estas lengalengas na escola parecia que dizíamos os números todos por extenso. Em 1978, o Pincho estava em Águeda e não houve assim tantos jogadores timorenses no futebol português para que a nota se reduza a rodapé.30 anos depois do Pincho estar em Águeda, o Recreio está à beira de ser campeão.
Aposto que o cão do Jorginho dos View Masters já está prontinho para subir ao seu trono de águas-furtadas da Venda Nova para, lá do alto, equipado a rigor, com a camisola grenat e calção azul, ladrar odes de amor ao Recreio de Águeda e ganir de esperança num futuro de glórias.
n RECREIO: Continuemos a saltitar de ano para ano. Em Setembro de 1983, o Recreio de Águeda estava na I Divisão. Diria o velho Carlos Pinhão: «Ai que saudades, ai, ai...» Quando o Recreio jogou na Luz, José Carlos achou que Luz não servia. Ou seja, não quis o Luz na Luz. E, então, tirou-o da baliza e deu-a a António José de Oliveira Meireles. Não sei como é que o Gomes Amaro relataria os golos sofridos por António José de Oliveira Meireles se alguém não tivesse decidido, em algum momento da sua vida, passar a tratá-lo pelo diminutivo carinhoso de Tibi. Eu vi esse jogo do Recreio de Águeda no Estádio da Luz. O Manniche, o outro, o grande, o que levava dois énes, e não este de agora, o mais pequeno, que leva só um éne e é membro honorário da Honorável Confraria dos Seca Adegas, com sede ali à rua de Baixo, à adega do Ti Canas, marcou o primeiro golo. E o Tibi foi buscar. Depois o Diamantino marcou outro, já quase ao fim, e o Tibi também foi buscar.
Depois veio o Natal e, quase, quase no Natal, o Recreio voltou a Lisboa, desta vez a Alvalade. Era Lisboa e chovia. Mas chovia. Chovia muito.
Eu estava em Alvalade. O meu pai também. E o meu tio Henrique, salvo erro. Não houve assim tantas oportunidades para ver o Recreio de Águeda jogar na antiga capital do Império. Nem há 30 anos nem hoje. Por isso, a gente de Águeda emigrada em Lisboa ia toda ver o Recreio. Como uma certa vez, para a Taça de Portugal, na Picheleira, num jogo contra o Vitória de Lisboa. Ah! O Vitória de Lisboa! Quem se lembra ainda do velho Vitória Clube de Lisboa, nascido da fusão do Picheleira Atlético Clube e do Botafogo, ali do Beco do Carrascal?...
n VITÓRIA: Bom, mas deixemos isso por agora. Vamos a Alvalade no quase Natal de 1983. Não havia Yazalde, mas no fim da primeira parte já estava 5-1 para o Sporting. Chovia chuva e choviam golos. E parecia que só chovia do lado do Recreio. Havia Jordão e Manuel Fernandes e depois outra vez Jordão e Manuel Fernandes, e o Tibi ia buscar. E a gente de Águeda, ali no Topo Sul, a ver os golos todos na perspectiva do apanha-bolas e do Tibi, atrás da baliza, todos nós a irmos buscar também, só com os olhos, mas a irmos buscar, uma e outra e outra e outra vez.
Consumado o desastre, temia-se a catástrofe. Mas, de súbito, apaziguador, veio o intervalo. E, com ele, a redenção do Recreio. Por volta dos dez minutos do segundo tempo, António Jorge fez um golo. Um golo simples, escorreito. Ah! No Topo Sul gargantas mudas gritaram em silêncio para dentro das gabardinas encharcadas: «Vai buscar, Katzirz! Não adianta chorar»... O Katzirz era um húngaro enorme, gigantesco. Mas nessa tarde de chuva não chegou para nós, lá no Topo Sul. E o golo de António Jorge fez com que deixasse de chover sobre o Recreio. Não quero mentir, mas acho que até houve um ou outro raio de sol. Em 45 minutos vencemos o Sporting, em Alvalade: 1-0. E que vitória bonita, épica, triunfal!
n PINCHO: Foi de repente que me lembrei do Pincho e, em seguida, veio tudo misturado. Até essa tarde de chuva, em Alvalade. Porque os grandes feitos do Recreio não se esquecem. Durem o tempo que durarem.



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