header Início | Página inicial | Adicionar aos favoritos |
Pesquisar Jornal   Pesquisa Avançada »
Secções
Arquivo
Sab Dom
12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
27282930

Notícias no seu Email
Subscrever Newsletter

Votação: Férias
Onde pensa passar férias em 2014?
Portugal
Estrangeiro
Não vou tirar férias
Resultados de votação | Votações antigas


email Recomendar a um amigo | print Imprimir |

MANUEL ALEGRE E OS POEMAS DE GUERRA

por BEJA SANTOS em Março 18,2008

image


Devem-se a Manuel Alegre os melhores poemas que até hoje se publicaram sobre a guerra de África. Melhor, aqui, significa: qualidade literária irrefutável, vibração na universalidade do sofrimento que irmanou os combatentes, captação magistral do horror, recordação imorredoira, discurso político da responsabilização pela guerra desnecessária.

Alegre escreveu os seus poemas em momentos diferentes, desde a exaltação “em cima do acontecimento” (caso de “Nambuangongo, meu amor”), até épocas posteriores como o belissímo “À sombra das árvores milenares”. Fez bem em juntá-los todos e recordar-nos que a sua poesia cabe e caberá nas lembranças da guerra de África onde participaram centenas de milhar de portugueses e africanos (“Nambuangongo, meu amor, Os Poemas de Guerra”, Publicações Dom Quixote, 2008). Os seus poemas são património da literatura portuguesa, eloquente testemunho político, livro de cabeceira dos combatentes.
Daí a sua universalidade. Em “1961-Mafra”, todos os futuros alferes milicianos partem com ele. Deixam famílias, os seus campos, crescem as angústias, guarda-se o silvo do comboio, são dias tristes.
 Em “Noutro Tempo uma Partida”, é a viagem de avião para a guerra, para a maioria de nós era o Cais da Rocha do Conde de Óbidos, a todos nós cabem os versos: “Verás Lisboa e a indiferença/e a tua angústia entre a tristeza e o vento”. Todos nós conhecemos Pedro Soldado com o seu nome bordado num saco cheio de nada, vieram da agricultura e da indústria, fizeram quartéis, emboscadas, viram ceifar vidas. Em todos nós há a visão dos Imbondeiros, as árvores onde combatemos, a vegetação luxuriante por onde caminhámos, por vezes as minas, toda aquela dor e todo aquele cansaço, depois algum descanso e até melancolia, “a corda por dentro da garganta”.
 O poema Nambuangongo, meu amor é único na literatura portuguesa, é a bandeira de todos os combates travados, desse tempo “longo longo/tempo exactamente em cima do nosso tempo”. São poemas que falam de tiros, granadas, flagelações, lágrimas, baladas para os amigos mortos, autobiograficamente ensina-se como se faz um poema, o poema é representado, é fotografado para a nossa memória.
Alegre quis comunicar a guerra para a denunciar: assim, “A Batalha de Alcácer Quibir”, em que Portugal saiu vencido, arrastando a nossa História. D. Sebastião e o seu sonho enlouquecido comprometeram Portugal, à semelhança dessa guerra em África, começada em 1961.
No fim, vem o dever de memória, muita acima do panfleto político, na última viagem de Portugal, de quem tudo experimentou, de quem nos quer alertar de um sonho esvaído, do respeito que devemos uns aos outros: “Soberbo e  frágil tempo/intensa vida à beira morte/amores de verão amores de guerra amores perdidos./Uma ferida por dentro um tinir de cristal/passaram os anos o ser permanece./Fiz a última viagem de Portugal.”
Alegre gravou no verbo o que guardamos no coração. E não é por acaso que ele é um poeta formidável e destemido.



10481 vezes lido

Gostou deste artigo?

1 2 3 4 5 Resultado: 4.43Resultado: 4.43Resultado: 4.43Resultado: 4.43Resultado: 4.43 (total 296 votos)
Os artigos mais lidos
Os artigos mais divulgados