Perdições de amor
Eu ainda sou do tempo em que não eram mui acessíveis aos cidadãos os jornais e muito menos os livros. Os estudos, ou a capacidade de ler, era pouca e a maior parte das vezes era nula. A obrigatoriedade de ir à Escola e de aprender a ler e a escrever, não era, nessa altura, exigente ou até necessária. Como disse José Saramago ao receber em Estocolmo o Prémio Nobel da Literatura, o Homem mais sábio que ele conhecera não sabia ler nem escrever. Eu também sou do tempo em que os pouco letrados, mas ávidos de conhecimento, eram devotos apaixonados pela leitura dos “Livros de Cordel”. As narrativas de histórias de amores, de dramas, de aventuras, de fantasias, chegavam em prestações, em folhetins ligados por um cordel que, todos juntos, no final, melhor ou pior encadernados, formavam um livro completo. Um meu vizinho, que era sapateiro, assinava religiosamente a aquisição de vários desses livros, que me emprestava, e eu, com 8 anos de idade, lia com avidez e delícia. Um desses livros chamava-se “AMOR DE PERDIÇÃO” da autoria do genial e fecundo poeta e romancista, Camilo Castelo Branco, considerado, ainda hoje, um dos principais expoentes da vida literária Portuguesa. Grande pela sua capacidade de escrever romances atrás de romances; enorme pelo seu estilo e pelos temas abordados; apaixonante pelos dramas que expunha e pelos dramas da sua própria vivência e pelas suas perdições de amores. O “AMOR DE PERDIÇÃO” em livro, ou em filme, fez e faz jorrar lágrimas sentidas e imparáveis a quem lê ou visiona o enredo. Até os mais calejados da vida choram. Camilo Castelo Branco, não nasceu, ao contrário do que se possa supor, no norte de Portugal. Nasceu em Lisboa a 16 de Março de 1825. Sua mãe morreu pouco depois. Seu pai morreu em 1835, tinha Camilo apenas 10 anos de idade. Ficou órfão. Foi levado para Samarda, em Trás-os-Montes, para casa de uma tia paterna, viúva e seca de afabilidades. Camilo, apoiado por um padre que se lhe afeiçoou, lá ficou estudando e lendo tudo o que encontrava. Aos 16 anos, 8 de Agosto de 1841, na Igreja do Salvador em Ribeira de Pena, casou com uma jovem da mesma idade, chamada Maria Joaquina. O sogro, comerciante com algum sucesso, quis que o genro estudasse para ser bacharel. Por causa de uns versos polémicos e brejeiros, que visavam uma família importante da região fugiu para o Porto, abandonando a mulher e a filha entretanto nascida. Matriculou-se na Escola Politécnica no Porto. Frequentou as aulas e a vida boémia do Porto. Lá longe, a mulher e a filha morreram precocemente, avolumando a sua vida de tragédia. No Porto, onde frequenta as aulas de Medicina, bebe, discursa, escreve e ama outras mulheres. Do Norte, vem para Coimbra. Instala-se na Couraça dos Apóstolos, numa República, onde, curiosamente quem alinha estas palavras viveu, também na Couraça dos Apóstolos, numa República – e curiosamente – também no tempo de Camilo existiu um Silva Pinto, escritor e jornalista que considerava Camilo o maior dos melhores escritores Portugueses. Há, de facto, coisas estranhas e curiosas. Volta ao Porto, que é onde se sente bem. Volta já afamado pelos seus poemas e pelos seus romances. Mas o pai de Ana Plácido, não aceita devaneios e obriga a filha a casar com Manuel Pinheiro, um português que no Brasil encontrara uma árvore das patacas. O casamento acontece, com as festividades tradicionais. Camilo afastou-se para Lisboa. Mas.. a ideia de Ana Plácido, nos braços do idoso brasileiro, queima-o, gela-o incomoda-o, e torna-a presente na ideia. Regressa ao Porto. Aperalta-se. Torna-se num dandy, diante de cantores, artistas do teatro e da ópera. Um dia, num camarote, vê Ana Plácido. Estava vistosa, engalanada com roupagens e jóias, e não mais desviou o olhar. Por sua vez, Ana Plácido, sonha uma ambição literária, ilusória, mas ambiciosa. Sente-se poetisa e tem vergonha de ser casada. Imagina idílios, aventuras, desvarios românticos. E Camilo estava ali com o seu passado, a sua fama de grande escritor, de duelista, de boémio, de contador de dramas, de paixões e fantasias. Ana Plácido, oito anos mais nova que Camilo, quer ser musa e amante de Camilo, num desejo ateado pela imaginação literária e sensual. Os dois amantes juntam-se e fogem ao escândalo, para Lisboa, onde Ana Plácido surge esplendorosa no Teatro Dª. Maria a ouvir poemas da sua autoria, numa récita em benefício das vítimas da peste. Entretanto, Manuel Pinheiro, o marido abandonado, sai da sua surpresa e do seu torpor e resolve recorrer aos Tribunais contra a mulher adúltera e contra Camilo. Pela primeira vez na história da cidadania portuguesa, um marido acusa o rival de adultério. A 26 de Março de 1860, Ana Plácido é acusada. É encarcerada na Cadeia da Relação, no Porto. A 1 de Outubro de 1860, Camilo entrega-se à Justiça e à prisão. Finalmente, a 15 de Outubro de 1861, ocorre o julgamento dos dois acusados de adultério. O Júri absolveu-os. Entretanto, Manuel Pinheiro morreu e Camilo casa com Ana Plácido, de quem teve dois filhos. Às três horas do dia 1 de Junho de 1890, Camilo suicidou-se. Esta croniqueta que aborda mui superficialmente a vida e obra de um dos maiores escritores portugueses de todos os tempos e cujos livros é importante ler e reler, tinha como objectivo chamar a atenção dos leitores para o facto raríssimo de um marido acusar o rival de adultério. Normalmente, acusa-se a esposa e pede-se o divórcio ou, por vezes, assassina-se aquela que teve um Amor de Perdição. Eu conheço um segundo caso que ocorreu no nosso distrito e que envolveu gente do nosso concelho. O acusado de adultério, um amigo meu, morreu. O Juiz que julgou e o absolveu também morreu. O advogado, meu bom amigo, que contou um curioso desabafo deste Juiz, também morreu. Posso pois revelar o comentário do Juiz. “Sabes o que queria o marido acusado?! O que ele queria era um atestado de “cornúpeto”, e isso eu não passo”.
n SILVA PINTO Email – jjsilvapinto@live.com.
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