ÁGUEDA RESSUSCITADA
Afinal, acontece às terras o mesmo que às pessoas: de quando em vez, revelam-se capazes de ressuscitar não no sentido material do termo (e, nesse sentido apenas Cristo, Maomé e a Virgem Maria, para aqueles que acreditam, venceram a lei da morte subindo ao Céu em corpo e alma…) mas na notoriedade política e na pujança cultural. Águeda parece ser o caso. Tenhamos a coragem de retirar o “ talvez”: Águeda é o caso. No que respeita à política, a terra tornou-se conhecida devido, sobretudo, à actividade desenvolvida por uma série de individualidades, umas de mais outras, de menos valia, algumas de cariz nacional, como aconteceu com meu avô, Albano de Mello, conselheiro de Estado, par do Reino, líder regional do Partido Progressista; logo depois por meu pai, agraciado pelo título de Conde de Águeda pelo rei D. Carlos, personalidade conhecida e politicamente dominante de toda a região aveirense, deputado, governador civil, etc., sem esquecer os chamados “Mellos de Águeda”, sedeados no território, além de, entre outros, Joaquim de Mello, presidente da Câmara ao longo de duas décadas, e a figura ímpar de António Breda, bem como o Comendador Conde de Sucena, o Dr. Eugénio Ribeiro, o Dr. Francisco Lima, o Dr. Augusto Baptista e mais uns tantos. Entretanto, surgiu o deserto. Poucos mais, para não dizer nenhuns. A industrialização fez progredir a terra, enriqueceu muita gente, mas manteve, em grande parte, a ileteracia Quanto à actividade cultural, merecerá citação, ainda que modesta, António Homem de Mello (Toy), cujo maior mérito foi ter “ legado” à região o filho poeta, Pedro Homem de Mello, que, de mãos dadas com Manuel Alegre, constitui agora o brasão literário da terra onde nasceram. Estas considerações vem a propósito dos dois livros que recentemente recebi, generosamente oferecidos e dedicados por Paulo Sucena, até há pouco presidente da FENPROF - onde realizou uma obra notável. Um desses livros exclusivamente debruçado sobre o percurso pessoal, político e literário de Alegre e o outro, de parceria, concentrado sobre a obra do outro poeta aguedense - Pedro Homem de Mello. Dois vultos notáveis da poesia portuguesa. Não posso deixar de revelar e realçar a referência que Manuel Alegre faz a uma confidência minha, quando, um dia, numa das poucas vezes que falámos (o que, aliás, lamento) lhe opinei que o Pedro “era um grande poeta menor”, o que motivou uma viva e discordante reacção do autor d´«O Canto e as Armas” . Ao reler, agora, os textos escolhidos e insertos nestes dois magníficos livros, não tenho pejo em dar a mão à palmatória, reconhecendo nos dois autores da terra (que, afinal, embora nela não tendo ocasionalmente nascido, considero como minha) um e outro figuras gradas da literatura portuguesa. À ilharga de António Nobre, Cesário Verde, Augusto Gil, Helberto Hélder, porventura Guerra Junqueiro e Antero de Quental. Águeda está a caminho do que já chegou a ser. Que vá em frente. * É preciso enterrar el-rei Sebastião É preciso dizer a toda a gente Que o Desejado já não pode vir É preciso quebrar na ideia e na canção A guitarra fantástica e doente Que alguém trouxe de Alcácer Quibir (…) Quem vai tocar a rebate Os sinos de Portugal? Poeta: é tempo de um punhal Por dentro da canção Que é preciso bater em quem nos bate É preciso enterrar el-rei Sebastião Manuel Alegre * Talvez que eu morra na praia Cercado em pérfido banho Por toda a espuma da praia Como um pastor que desmaia No meio do seu rebanho… (…) Talvez que eu morra no leito Onde a morte é natural Das mãos de Deus tudo aceito Mas que eu morra em Portugal !
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