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Olhares oblíquos

por Manuel Armando (Padre) em Maro 19,2014

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Não, não é aquilo que o leitor começou já a imaginar. Nem pense que vou falar de “maus-olhados”, por aí bem numerosos e a precisarem de uma ida ao oftalmologista.
Também quero fugir a ser mal entendido e ainda me recuso a qualquer aceitação do medo a que me olhem de uma forma oblíqua.
Tentarei explicar-me. Nem sempre é fácil entrarmos no campo das apreciações sobre quaisquer pessoas.
Corre-se o risco frequente da imparcialidade, inoportunidade, inconveniência ou incongruência, para não dizer-se ignorância vaidosa.
Pode ferir-se ou subestimar o nosso semelhante de maneira inadequada e injusta.
 E se essa atitude vai lesar os direitos ou a privacidade do outro, então, o caso tende a agudizar-se e constitui um grave momento a exigir refreamento e regressão nos vários âmbitos da sociedade.
E que sucede quando qualquer das avaliações é feita na nossa presença e sobre nós mesmos? Ficamos sem termo ou apenas vamos encolher os ombros por compaixão e esboçar um sorriso de acomodação fictícia a denunciar que a verdade não se produz com mera lisonja. A verdade é como é, e torna-se tão inútil como ridículo querer escamoteá-la.
Aparece enriquecedor o facto de alguém descobrir as nossas qualidades, como também apontar defeitos. A diversidade de opiniões sobre nós próprios pode conduzir-nos a um mais consciente endurecimento da vida e das respectivas obrigações. Assim, qualquer de nós é convidado a corrigir-se ou a reanimar os pontos de vista pessoais sobre os mais variados parâmetros da vida particular, na perspectiva de construção de um mundo equilibrado, harmonioso, justo e atraente.
Mas, o desinteressante é o sermos confrontados, quase simultaneamente, com duas observações completamente antagónicas.
Para exemplificar bem de perto: - abeira-se de mim um amigo ou conhecido e diz: «Oh, há quanto tempo não nos vemos! Como estás mais gordinho!…» Logo tenho de responder com o “é da idade”. Vira as costas e logo outro se aproxima e apressa-se a comentar: «Já não me lembro de quando nos encontrámos pela última vez. Estás elegante, mais magro. A tua saúde vai bem?»
Não sei como nem o que hei-de responder, desta feita. Dois minutos volvidos bastaram para haver uma metamorfose na minha fisionomia. Atacou-me, nesse momento, uma crise existencial. Não conheço quem sou nem como sou.
Fico a cismar sobre o significado certo da verdade e medito-a na vida com todas as vicissitudes. Para uns, um mar imenso de rosas, para outros, um inferno de dificuldades e mazelas. O prisma de visão não se coaduna de modo igual em duas pessoas. Chegar a um consenso generalizado tornar-se-á missão quase impossível.
O contexto político e social que actualmente nós experimentamos poderá considerar a sociedade em visão oblíqua, mas, sabendo-se existirem convicções e procedimentos diferenciados em todos os membros, deverão ser devidamente respeitados e seguidos como enriquecimento pessoal e comunitário.
Pena que cada pessoa queira somente afirmar a “sua” verdade sem conferenciar com a do seu semelhante.
Vamos construindo a cidade nova, mas ela apenas se erguerá se cada um, descobrindo-se possuidor de carismas diferentes dos que enriquecem o outro indivíduo, puser esses seus atributos ao serviço da comunidade, sem olhares oblíquos nem segundas intenções.
n PADRE MANUEL ARMANDO

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