Clube da venda Nova
Amorim Laranjedo, ilustre médico, escritor, historiador, hermeneuta, ensaísta e mestre em Bioética e Ciências das Religiões, cristão ativo, concluiu um aturado trabalho de investigação e coligiu em livro dados monográficos da igreja de Aguada de Cima e das capelas, ermidas e alminhas existentes naquela freguesia. E com a ajuda de um sponser publicou-o. No dia do lançamento desse livro, na própria igreja, foram expostos no vestíbulo vários exemplares e, a seu lado, uma pequena caixa retangular transparente, contendo um prego enferrujado e ao preço de três euros cada uma! Intrigados, curiosos e com as ideias em barafunda, as pessoas refletiam, revirando tão estranho conjunto, não conseguindo descobrir a razão de um prego torto e enferrujado valer tanto dinheiro. “Em cada caixa, a que podem chamar relicário – esclareceu Amorim Laranjedo, esfregando as mão entrelaçadas junto à cintura, em tom homiliático – está um prego velho, carcomido e se calhar torto que segurava a talha do altar que foi removido e substituído aquando das obras de restauro desta igreja”. Pigarreou, fez um momento de silêncio e continuou: “Como sabem, há muita gente que vai à Terra Santa e traz de lá um pequeno medalhão redoma com um nico de madeira, que é vendido como se fosse do Santo Lenho e outras com uma folha de oliveira, como se fosse de uma árvore do Monte das Oliveiras”. “Ora, ora – observou o Joaquim das Baterias – para os milhões de pessoas que já lá foram e trouxeram essas relíquias, eram precisas milhares de cruzes e milhares de oliveiras...”. “Tem razão, mas o que interessa é o que simbolizam – retrucou Laranjedo – esses objetos podem ser sacralizados, quer dizer, pode dar-se o caráter sagrado às coisas profanas”. “Mas parece-me que esses pregos – disse o Júlio Carapuço - não têm nenhum atributo, para que possam ter sagração”. “Olhe que têm – respondeu o dr. Laranjedo – porque já ouviram tantas missas, sermões, homilias, confissões, hossanas e aleluias e até exorcismos...”. “Sendo assim, também as paredes, as portas, os vitrais, as pedras e as traves, tudo o que foi removido, tem o mesmo misticismo - disse o Correia do Trinta - e mais, a água benta do hissope, quando aspergida, ia ter às paredes e não aos pregos”. “Pelos vistos – murmurou o Pedro do Estima, indo-se embora – não me admira nada que qualquer dia ande por aí alguém com uma tenda a vender caliça, vidros partidos e pedaços de pau em caixículas... ainda vão fazer fortuna!”.
*** * *** O Melro da Diamante saiu da livraria do Rinodente esfuziante, frenético, com os braços levantados, a gritar: “Ganhei, ganhei o euromilhões! Até que enfim!”. Ia tão entusiasmado, que até embateu num arco da armação do Natal. A Manuela dos Cacos deitou a cabeça de fora e foi perguntar à Céu Rinodente se era verdade o que ouvia, tendo sido informada que, realmente, tinha saído um prémio ao Melro. A Manuela pegou no telefone, espalhou essa boa nova, que causou rumor na cidade e fora dela. Algum tempo depois, já o Melro estava na loja serenamente a pôr a corda num relógio de bolso, juntaram-se dezenas de pessoas à porta, designadamente agentes imobiliários a vender prédios, vendedores de iates e de automóveis de gama alta, bancários, pivots da rádio e da TV com carros de exterior, jornalistas, de entre eles o Jorge Gosta que se esgueirou por entre a multidão, entrou na loja com mais dois ou três e perguntou: “O que é que vai fazer com tanto dinheiro?”. Ainda boquiaberto com o aparato o Melro pousou o alicate, tirou o monóculo e pasmado, respondeu: - O que é que eu vou fazer? Vou almoçar ao Barriga Cheia, que não dá para mais, só me saíram onze euros! Foram todos embora de monco caído, descorçoados. No rescaldo, o Melro deu uma volta à loja e viu que lhe faltavam uns óculos de sol que, embora fossem da candonga, valiam mais do que o prémio!
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