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Em Fermentelos, vai haver uma guerra civil

por Redacção Soberania em Agosto 05,2011

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A proposta peregrina de redefinir a divisão administrativa do território, tem provocado celeuma e causado os mais diversos sentimentos, desde o conformismo até à revolta delirante. Isto tudo em nome da contenção da despesa pública e adgeornamento dum mapa desenhado há dezenas e dezenas de anos, com mitos anacrónicos e contornos fora da realidade etnico-sócio-geocultural.
"Eu acho bem e não devia haver mais de quatro ou cinco freguesias – disse o Seara Alheia.
 Eu também acho – concordou o Pedro Comes das Tendas, de Recardães – deve haver uma nova organização e que Recardães se agrupe com Espinhel, Barrô, Aguada de Baixo, etc., mas também entendo que a freguesia de Águeda deve acabar, já!".
O Seara Alheia deu um salto contrariado e tocado e reagiu:
"Águeda? Acabar com uma junta tão dinâmica, tão activa, tão poupada?! Obras por essas ruas e praças, nas valetas da Maçoida, nos caminhos de Paredes, tudo limpo e asseado?".
E terminou com ar cansado do esforço de se fazer ouvir.
"O que eu digo e garanto é que em Águeda, quem faz tudo, é o Clube da Venda Nova, a Junta é figura decorativa".
O Seara Alheia saiu a bufar e a falar sozinho.
"Como disse o presidente da Associação de freguesias, primeiro devemos conhecer os critérios e os objetivos da governação – disse, gaguejante, o Heitor Carapuço, de Aguada de Cima – depois, se significarem benefício, deveremos aceitar. E se nos for imposto, também temos que aceitar, não podemos mudar a direcção do vento, mas podemos adaptar as velas para chegar ao destino".
"Bem dito – atalhou o Carlos no Lastro, de Fermentelos – eu espero com serenidade que determinem os traços do novo mapa, mas digo uma coisa, se quiserem acabar com Fermentelos, vai haver uma guerra civil! E não é militar, porque não há tropa nem guarda republicana".
"Não diga isso – observou o Fernando de Óis – antes de mais, o povo deve ser ouvido e há vários tipos de organização administrativa, que podem ser adoptados como, por exemplo, as grandes áreas metropolitanas, como a área metropolitana da Pateira a englobar todas as freguesias de um lado e do outro, sendo, obviamente, Óis a liderar, que até tem comboio...".
"Nunca!" - disse colérico o No Lastro. E saiu Porta foram atrás do Seara Alheia.
"Mas também podem ser organizadas em federação – sugeriu o Jorge Americano, da Borralha – a minha freguesia pode bem abranger a parte norte de Aguada de Cima, até à Borralheira, o poente de Belazaima, até ao Cabeço Santo, o Sul de Águeda até à Rua de Cima e o nascente de Recardães, até ao Vale do Senhor...".
"Isso era uma grande confusão, ninguém sabe onde é o norte nem o sul, além de ser ambicioso, mas a ideia não é má – observou o Carlos Aberto de Valongo – as Federações reuniam numa confederação...".
O Carlos da Bandeirinha, da Trofa, encolheu os ombros e resmungou:
"Isto acaba sempre em futebol!".
                         *** * ***
A Céu Rinodente estava encostada à ombreira da porta e disse para a Manuela dos Cacos que estava a montar cá fora uma mesa com estrelas do mar, búzios, sapos, borboletas, mealheiros e outros artigos de porcelana de Limoges e Vista Alegre, made in Alcobaça e uma lata com bengalas de moleta curva e cabeças de leão:
"Já sei porque é que o Castilho das Pompas Fúnebres, presidente da Associação dos Secos e Molhados, pediu para ser o Continente a patrocinar a Feira do Leitão!".
"Mas olhe que ele traz cá o Tony Carreira, o que é muito importante e dá nome à nossa terra" – disse, com vivacidade, a Manuela.
"Pois é – respondeu a Céu – mas é um concorrente que nos asfixia! A ele não, porque, por enquanto, o Continente não vende urnas, caixões e coroas e não faz funerais!".
"Agora também entendo!".
– rematou a Manuela.


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