Traduzir a liberdade
A liberdade não se traduz e não se traduzem o respeito, a verdade, a honestidade, a honra e o carácter. As palavras traduzem-se, porque são signos convencionais e é necessário adaptar os signos às formas da linguagem; para os filólogos as palavras são apenas preconceitos, cujo estatuto é baixo. Importante é o conceito ou a essência e o seu significado, que não podem ser traduzidos sem grave deturpação. Podemos traduzir um grito…, um abraço longo e solidário…, um beijo arrebatado? Podemos traduzir a Grândola Vila Morena? A maioria dirá que sim: pega-se na letra e o computador faz a tradução. Quem assim responde, não liga ao conceito da Grândola Vila Morena e não consegue consciencializar mais do que o seu preconceito, resumido à forma e sem conteúdo. Porém, o que está para além desse preconceito traduzível dá a Grândola Vila Morena um valor superior ao “apita o comboio” ou ao “nós pimba”. Podemos traduzir “Grândola”, por “Grandole”? E que tal “Grand Hello”? Lá se vai a fidelidade à raiz cultural alentejana, ao génio de Zeca Afonso e ao hino libertário. Não se traduz o extracto do poema de Paul Eluard « …Et par le pouvoir d’un mot/Je recommence ma vie/ Je suis né pour te connaître/ Pour te nommer / Liberté». Se fosse traduzível, eu tê-lo-ia feito na própria Assembleia Municipal, onde contextualizei e justifiquei este pensamento sublime com os temíveis sinais da iniquidade e da imposição de um pensamento oficial, que poderão pôr em causa o actual regime constitucional. Se fosse, eu teria fornecido a tradução apropriada. A tradução publicada foi mal feita? Sim, literalmente incompetente. Mas, chocante é a ousadia de fazer a tradução a um estado de alma, um grito e um valor imaterial como se fosse uma mercadoria com desvalorização cambial; ou será que o pensamento oficial já impõe que os grandes valores universais também se troquem e traduzam como as acções do BPN, que depois da tradução não valem nada? Isso foi imposto em Portugal, há 80 anos. Sugiro dois pequenos poemas de Fernando Pessoa, que podem (se quiserem!) traduzir para Português, pós-acordo ortográfico: “Este senhor Salazar/É feito de sal e azar. Se um dia chove,/A água dissolve O sal/E sob o céu/Fica só azar, é natural. Oh, c’os diabos!/Parece que já choveu...”
“O tiraninho…/Bebe a verdade E a liberdade,/E com tal agrado Que já começam/A escassear no mercado.” n MANUEL FARIAS
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