Há 100 anos: Uma féra
No sabado, andou por aí a mendicar de porta em porta, uma cega, dos lados da serra, a qual era guiada por uma creança, infezada e triste, dizendo-se filha da mendiga. Num dos portais aqui da vila, onde fôra bater, recebeu a creança a esmola dum bocado de pão de trigo, que ela apressadamente escondera e que daí a pouco comia com sofreguidão. A céga, que tudo percebera, jurou logo raivozamente que ela lh’o pagaria caro, que no caminho de caza lhe pediria contas, ameaças estas que foram prezenciadas por alguem. Horas depois aparece em Agueda uma serrana, e conta que no caminho, ouvindo gritos de alguem que pedia socorro, se aproximára, indo encontrar uma creança a escorrer sangue, a fujir, cheia de medo. Era a filha da tal céga, a quem esta, depois de haver castigado com severidade, lhe arrancára, á dentada, uma grande parte do coiro da cabeça, deixando-lhe o craneo em parte a descoberto. Tinha-se vingado, a féra!
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