O Armazém
Tempo vai em que eu fazia de qualquer campanha eleitoral uma festa. Ou pela novidade da coisa ou pelo nível e entusiasmo da mesma. Hoje, é um cansaço e a falta de paciência muita. Não há nada como o tempo para esmorecer quer a dor quer o entusiasmo… Esta tem sido, além de fastidiosa, cheia de “atiradores furtivos” com chumbos do que lá vai em vez de promessas de boa “caça” para o presente. O que até nem causa espanto se formos a pensar que a caça de melhores e mais proveitosos empreendimentos políticos, económicos, financeiros e sociais se vêm estreitanto progressivamente a um campo onde as mais nobres peças foram abatidas e deixaram de estar ao alcance das gerações que se vão seguir por muitos e bons… Provavelmente maus. A jornalista Helena Matos escreveu um dia destes um artigo interessantissimo a este respeito. Ora sigam-me: “Talvez o primeiro momento em que a geração de 60 finalmente se sentiu adulta em Portugal tenha ocorrido quando constatou que a culpabilização do Estado-Novo já não não chegava para explicar o presente (…), a geração de /60 será em Portugal uma das primeiras, em décadas e décadas, a ser sucedida por outras que viverão pior. O ano que agora acaba é aquele em que se tornou óbvio que falharam a vida, meninos. O que nos espera, de agora em diante, é constatar que para além desse falhanço também lixaram a vida daqueles que vieram depois”. Palavras que causam uma certa amargura mas de certeiríssima pontaria! E aqui volto a duas compulsões: uma já por mim confessada (tudo quanto Sócrates diga causa, em mim, um repúdio imediato e incomodativo) e a outra que a ele pertence e de que, pelos vistos, nem todos os portugueses se aperceberam: o 1º ministro é compulsivamente optimista, ou compulsivamente mentiroso. Os seus próprios ministros estão constantemente a desmenti-lo, e a desmentirem-se, metendo-nos cabeça a dentro lufadas de nevoeiro propícios a “choques em cadeia” que ele habilmente tenta enxotar, que nisso é hábil… Ultimamente, viaja quase em permanência, tentando vender, impingir, negociar, a nossa dívida soberana. Eu também gostava que o FMI e outros disciplinadores de incumprimentos não tivessem de entrar-nos portas adentro. Não amachucava tanto o meu orgulho de portuguesa. Custa-me é ver o meu país transformado em armazém grossista de venda a retalho a colocar a dívida por ali, por acolá, por “Seca e Meca e Olivais de Santarém”, em todas as “chafaricas “com disposição e dinheiro para a comprarem. Além de também amachucar o orgulho a previsão a longo prazo mete medo. Quem viver, verá. Que é triste, é! AINDA TEMPO: Como Deus sempre que fecha uma porta abre uma janela, facultou-me pelo postigo fantasioso mas divertidíssimo (estava a minha porta fechada pelo desalento) um óptimo motivo de descontração ao ler da obra” O segredo de D. Afonso Henriques”, de Jorge Laginhas, o seguinte apelo ás tropas que o acompanhavam na conquista de Alcácer do Sal: “pelejai raivosamente como se pelejásseis contra vossas sogras que o são, ou pelejásseis contra aquelas sogras que ainda não sendo o haverão de ser!” É o que os nossos candidatos à Presidência da República andam a fazer… n LUISA MELLO 17-1-11.
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