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A Natureza, o Ambiente e a Biodiversidade

por António Silva em Janeiro 05,2011

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A Natureza, o Ambiente a Biodiversidade são temas pertinentes. E oportunos, para analisar com as altas individualidades do saber e dos negócios - com quem dividirei uma  história de vida com 70 anos, para perceberem porque falo de ambiente e porquê a minha preocupação com a problemática social, nas empresas e fora delas.
Nasci aldeão e por lá fiquei, ligado à terra e até aos 20 anos, num ambiente agrícola de subsistência, que usava fertilizantes orgânicos auxiliados, apenas, por uma pequena porção de amónio, num tempo em que as pragas eram combatidas com DDT e as moléstias prevenidas com enxofre e sulfato de cobre, mas em doses tão cuidadas que os venenos funcionavam como remédios!
E os agricultores, sem conhecimentos de química, compensavam essa lacuna com o respeito que tinham pela natureza e seguindo à risca as recomendações do boticário, para que nem o homem nem as plantas morressem da cura.
E controlavam as pragas!
A esse tempo, pastoreávamos o rebanho pelos montes da aldeia, e distraíamos o estômago com amoras e outros frutos silvestres e matávamos a sede em qualquer regato que escorria das entranhas da terra, sem risco de intoxicação porque a natureza reage, sempre, na razão directa do respeito que tivermos pela ela!
E foi assim até princípio dos anos sessenta, quando fui trabalhar para a oficina, nome que se dava às fábricas que trabalhavam o ferro… E tudo mudou!
O silvo do vento e o canto das aves cederam o lugar ao roncar dos motores e ao chiar das correias das máquinas e, em vez da beleza cromática da natureza, tínhamos agora, pela frente, um quadro bem mais negro, de paredes enfarruscadas pelo fumo das fogueiras que amenizavam os rigores do Inverno e que enchiam o ar de poluição. Uma poluição acrescentada pelo fumo dos cigarros que se misturavam com o trabalho, num tempo em que se cuspia para o chão e se urinava contra as paredes!
E, para complementar o triste quadro, consumia-se, regularmente, na empresa, ácido sulfúrico, ácido nítrico, ácido bórico, ácido clorídrico, crómio, potassium, desengordurantes, abrilhantadores etc., etc., e…, pasme-se,  paredes adentro utilizavam-se toneladas de cianeto no endurecimento das peças que ali se produziam: Tudo isso sem qualquer controle ambiental!
E os gases que saíam dos cadinhos de cementação eram tão tóxicos que, à volta, a vegetação rasteira desaparecia, as árvores secavam e quando as usávamos como combustível de aquecimento, ficava no ar um cheiro agridoce de cortar a respiração. - O perigo do cianeto espreitava!
Não obstante, o forneiro protegia-se, apenas, com um lenço com que tapava o nariz e a boca… e morreu cedo!
A minha sensibilidade era afectada, por sentir-me cercado de produtos tóxicos que dali partiam em forma gasosa, líquida e sólida, em enormes quantidades, e a curiosidade levou-nos a descobrir que 30% dos consumíveis eram venenos que, por inadequado manuseamento, os mais voláteis subiam para a atmosfera e por lá andam a afectar o sistema ambiental, provocando devastadoras alterações climáticas. Os líquidos corriam a céu aberto até quilómetros de distância, conspurcando os rios até à esterilidade, com efeitos bem visíveis, ainda hoje, pois na sua esteira ficava um rasto de desolação e morte, enquanto os sólidos eram enterrados de modo a escondê-los de maus-olhados, embora daqui a cem anos continuarão a envenenar o ecossistema, numa permanente contaminação dos solos e das linhas de água!
CULPAS DOS GOVERNOS

Este relato pretende lembrar os erros que se cometeram, e ainda cometem, por quem quer os ovos de ouro, sem cuidar da galinha.
Mas os industriais nem sequer têm a culpa maior porque, na sua maioria mal preparados, pensavam apenas nos lucros!
Aos Governos, deve ser assacada a culpa pelo que não fizeram pela natureza e a biodiversidade.
Porque eles não sensibilizaram as populações, nem educaram as pessoas para hábitos de boas práticas ambientais.
Porque eles não preveniram os candidatos a industriais, para as responsabilidades acrescidas na defesa da natureza, já que a indústria é quem mais polui.
Porque eles não criaram normas de prevenção adequadas nem fizeram leis que desencorajassem estes crimes ambientais.
Durante décadas, as descargas poluentes eram punidas com multa de sete contos e quinhentos.
Ora, o empresário, nem sei se lhe deva chamar isso, de astúcia aguçada, depressa descobria que ficava mais barato descarregar para o rio e pagar a multa, do que manter um sistema de tratamento adequado sem se perturbar com a agonia dos peixes à tona da água, porque, regra geral, ele vivia para deixar aos filhos e netos, luxo até à extravagância, dinheiro até à avareza.
E às gerações vindouras…, morta, a natureza!
A responsabilidade da protecção do ecossistema é global, mas andámos alheados, demasiado tempo, dessa obrigação e, quando nos propusemos mudar de rumo, foram imensas as dificuldade em contrariar o modus operandi, enraizado nas mentalidades durante décadas.
Mas, em consequência das viagens que fazíamos pelo mundo, sabíamos que na parte civilizada do globo, o respeito pelo ambiente está na primeira linha das preocupações de todos.
Por lá, evolução e natureza, não são incompatíveis!
Por cá, preocupações…, não há!
E quase sempre, evoluir é sinónimo de destruir!
Lutámos durante décadas contra a indiferença, perante a natureza, mas só quando chegámos ao topo da hierarquia, tivemos força para mudar o rumo, na tentativa de corrigir os erros.
E o resultado foi como diz o povo:
Matar dois coelhos de uma só cajadada!
Ganhou a natureza, o ambiente e a biodiversidade.
Ganhou a empresa, porque ganhou novos clientes, novos mercados e uma nova mentalidade.
Finalmente, ganhámos todos nós!
O que de mais difícil enfrentámos, foi a mudança das mentalidades, mas, vencidas as primeiras resistências, sentimos a diferença entre ser ou não ser cumpridor das regras ambientais, e o resultado imediato foi: Paz de consciência!
As dificuldades maiores sentimo-las no recrutamento de pessoal especializado que, compreensivelmente, não aceitava trabalhar num local como o nosso, onde o termómetro subia aos 44º no Verão, para descer até aos 4º no Inverno.
E foi por aí que começámos, para que hoje, nas nossas empresas, não seja preciso vestir o casaco no Inverno, nem tirar a camisa no Verão!
Com as mudanças correctas e os cuidados necessários, entrámos para o clube das empresas certificadas para a qualidade, em 1997, no âmbito da norma ISO 9001, com o número de ordem 586, num universo que envolve todo o País.
Estava encontrado o rumo certo para o objectivo económico, faltava encontrar, para o sistema produtivo, o equilíbrio com a natureza e só tínhamos um caminho: a certificação ambiental!

CERTIFICAÇÃO AMBIENTAL

Foi por aí que seguimos com medidas radicais e até de alguma violência económica. Mas foi a mais agradável aventura em que nos envolvemos como industriais, e sentimo-lo quando, no dia 26 de Setembro de 2006, coincidindo com o 60º. aniversário da empresa, recebíamos, na presença de um director do Ministério do Ambiente, a bandeira verde, símbolo da norma ISO 14000, e o certificado de boas práticas ambientais com o nº 0290, testemunhado pelas mais de 50 bandeiras hasteadas. Tantas, quantos os países onde estão os nossos clientes que, naquele dia histórico, nos honraram com a sua presença!
Não foi só um momento de festa, foi o momento alto de uma odisseia, com avanços e recuos na modernização da empresa e o virar de uma página de contínuos crimes ambientais que nos enchiam de vergonha e cumplicidade, ainda que só por omissão.
Finalmente, de consciência bem mais leve, podíamos respirar fundo, porque o ar era, agora, bem mais puro e a água muito mais cristalina!
Umas quantas notas, do antes e depois do processo de certificação ambiental, mostram que gastávamos por ano 10 toneladas de tricolorietileno (tão perigoso que, entretanto, foi proíbido) e que, pelas suas características voláteis e de má utilização, iam na maior parte, para o espaço, em forma de gases e o que restava, depois de saturado pela utilização, seguia o mesmo rumo que todos os outros poluentes: a sarjeta!
Hoje, com equipamento adequado e utilização controlada, gastamos algumas centenas de quilos de um sucedâneo muito menos perigoso.
Em consequência dos maus procedimentos, diria crimes, as emissões difusas na nossa empresa, ultrapassavam 90%. Hoje, rondam os 8%!
A biodiversidade é um caso tão sério que devia estar em permanente alerta vermelho, porque à evolução tecnológica corresponde uma maior degradação biológica se, entretanto, não houver restrições e medidas compensatórias.

NATUREZA E BIODIVERSIDADE

Durante milhares de anos, a humanidade tomou como garantidos os bens e os produtos que a natureza oferece e as sucessivas gerações serviram-se deles como coisa inesgotável, até à revolução industrial, quando os recursos naturais passaram a ser explorados até à exaustão, para satisfazer um consumismo que subiu em espiral, causando danos irreparáveis ao ecossistema.
O homem destruiu mais nos dois últimos séculos do que os seus antepassados nos dois anteriores milénios!
E foi perante a falência acelerada do sistema ecológico que a Conferência para a Diversidade Biológica de 1992 abriu, finalmente, as portas para uma melhor consciencialização dos passos a dar na recuperação do que ainda for possível e travar a destruição do que resta.
Mas aliciar o sector privado para uma participação activa e com investimentos, que neste campo são avultados, sem que se vislumbrem quaisquer benefícios a curto prazo, parece utópico, já que a sociedade é pródiga a fazer cifrões, mas não tanto a cumprir obrigações!
Isto é a consequência de para ser engenheiro, ter que saber regras de cálculo; para ser médico, ter que conhecer o corpo humano; para ser músico, ter que conhecer bem os tons; para ser advogado, ter que conhecer as leis.
Mas para ser industrial, só é preciso ter ambição quanto baste e uma boa dose de aventureirismo.
Mesmo irresponsável e estúpido, num segundo, uma assinatura faz do Zé ignorant, o Zé importante. Qual natureza, qual biodiversidade!
E se para alguns ramos de actividade, no caso da agricultura, da caça, ou do turismo, o valor da preservação da natureza é intrínseco e inquestionável, para outros sectores, como a indústria e os serviços, não é tão fácil encontrar relação directa entre biodiversidade e a actividade exercida.
Daí que um teste à sensibilidade do candidato a industrial, como se faz para tirar a carta de condução, ou para ter uso e porte de arma, seria um passo importante na mudança das mentalidades. Porque sendo a indústria quem mais polui, são imprescindíveis as boas práticas ambientais para minimizar os estragos. Não bastam as lindas fachadas!
E quando o empresário se esquece desse primário dever, compete ao Ministério do Ambiente - que é, nesta matéria, o elo de ligação entre cada um de nós - ter uma posição que alicie o industrial e o comum cidadão, para as necessárias práticas em defesa do ecossistema porque, é na relação das vertentes, actividade industrial/sistema ambiental, que se encerra o paradigma da biodiversidade, como negócio.
Virtualmente, é impossível consolidar uma empresa sem qualquer impacto agressor da natureza, mas, por experiencia, sabemos que, os países mais desenvolvidos e mais conscientes do valor ecológico preferem os fornecedores que demonstrem boas práticas nessa área já que para haver continuidade da existência de vida no planeta, não há escolha entre preservar ou não preservar a natureza.
Por isso, as boas práticas ecológicas são um imperativo e, para concretizá-lo, só há dois caminhos: a educação, que é o método mais conveniente e eficaz, ou a punição para aqueles que não se deixem educar. Porque a vida, quer animal, quer vegetal, depende das nossas atitudes e, por experiência, podemos garantir que um bom sistema de controlo ambiental conduz, pacificamente, a bons resultados. Tal só se consegue se tivermos em conta que a empresa não é apenas o espaço físico e que o sistema só funciona com o comprometimento de todos os níveis de funções na organização:
administração, fornecedores, colaboradores, clientes, entidades reguladoras e, a mais importante das partes, por ser onde se reflectem os bons ou maus resultados, a comunidade!
Não esquecendo o empenho da gestão de topo, sem o qual nenhum sistema funcionará bem!
E, com os olhos bem abertos, todos os dias encontramos resíduos em que nem sequer tínhamos pensado, mas que precisam de  tratamento adequado.
Numa das nossas empresas, começámos por identificar e qualificar quatro resíduos para reciclagem. Hoje, são 49 as rubricas que são encaminhadas para gestores específicos e autorizados. Isto em consequência do rigor que impomos no cumprimento das normas!
Em súmula, direi que todas as nossas empresas estão de boa saúde, até económica, e isso deve-se ao bom ambiente físico que ali se vive, mas, essencialmente, mental. Pois não é novidade para ninguém que trabalhar em espaços asseados, ar limpo e sem grandes oscilações térmicas, tem imensas vantagens.
Desde logo, um menor risco de doenças e menos baixas médicas, o que é muito importante para a estabilidade da empresa e um sinal de que os nossos colaboradores se sentem bem no local onde passam a maior parte do seu tempo.
É que se o trabalho é a dignificação do homem, como dizem, deixará de sê-lo se, havendo alternativas, for realizado em condições adversas e em ambiente de caos, porque em tais condições o colaborador faz movimentações desnecessárias para estabilizar as emoções. Perde-se o ritmo, baixam as produções, diminui a qualidade, instala-se o desânimo. Finalmente, todos perdemos!
A aposta nas boas práticas ambientais e uma qualidade de excelência nos produtos e serviços, a par de um permanente exercício de consciência pela melhoria das condições sociais dos colaboradores, dignificando-os, obriga, que todos os dias façamos qualquer coisa de novo para que não fiquemos velhos.
Esta é a receita do relativo êxito que temos tido e razão bastante para travarmos todas batalhas, na esperança de ganharmos uma só guerra, pensando sempre, no Ser mais importante deste cosmos: o Homem!
E garantir aos que connosco colaboram, conforto físico e estabilidade emocional, no respeito pelo bem maior do nosso planeta: a biodiversidade!
Termino com um pensamento que há muito é o meu catecismo: O rigor leva à vitória, a sorte, apenas ajuda!
n ANTÓNIO A. SILVA
15-12-2010
(Colóquio na Escola Superior de
Tecnologia e Gestão)

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