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A fé não se decreta

por Dr. Silva Pinto em Agosto 05,2010

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Afonso Costa nasceu em Seia, em 1871, faleceu em Paris em 1935 e está sepultado na sua terra natal, desde 1971.
Foi estudante com aproveitamento acima da média. Aos 12 anos, matriculou-se no Seminário da Guarda, onde fez os primeiros exames. Depois do Seminário frequentou, desde 1886, o Colégio de Nossa Senhora da Glória, no Porto, onde concluiu o ensino secundário. Fez os seis anos do curso em apenas quatro. O nome das escolas é curioso, como veremos mais adiante.
Em 1887, com 16 anos, matriculou-se no curso de Direito, em Coimbra, onde foi considerado um aluno excepcional, o que lhe valeu ser premiado várias vezes. Em 1889, ficou órfão de pai.
Em 1890, quando do “Ultimatum” do Governo Inglês a Portugal, negando as pretensões portuguesas e impondo condições gravosas a Portugal, em relação aos territórios africanos de Angola e Moçambique, que beneficiavam a Alemanha e a Inglaterra, Afonso Costa, no segundo ano de Direito, e António José de Almeida, em Medicina, verberaram violentamente a atitude do nosso velho aliado e condenaram  com virulência, a atitude passiva do Rei D. Carlos e do Governo de então. Por causa dessas manifestações, foram presos e defendidos pelo aveirense Magalhães Lima.
Mas, em 1891, lá estavam os dois, no dia 31 de Janeiro, envolvidos na proclamação da República, que haveria de surgir a 5 de Outubro de 1910.
Afonso Costa continuava a estudar. Doutorou-se em 1895 com a classificação de 17 valores, defendendo a tese “A Igreja e a Questão Social” na qual ataca e critica a encíclica ” Rerum Novarum”, promulgada pelo Papa Leão XIII, encíclica que, em tempos, muito apreciei.
Em Outubro de 1895, tornou-se professor de Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Tinha 24 anos. Foi o docente mais novo de todo o corpo catedrático. Era um jovem de fibra.
Deixando o percurso da vida académica e política deste cidadão, amado e odiado da primeira República, saltemos para 1910 e para o Governo Provisório que resultou dos acontecimentos de 5 de Outubro, presidido pelo Prof. Dr. Teófilo Braga e com o Prof. Dr. Afonso Costa a ocupar a pasta da Justiça.
Logo a 8 de Outubro, além de outras medidas, entravam em vigor antigas leis do tempo do Marquês de Pombal, de 1759/1767, que expulsaram os Jesuítas de Portugal e da Europa, por decreto papal; e as leis de Pedro V e Joaquim António de Aguiar – o “Mata Frades” – de 1834, que encerravam a maioria das congregações religiosas em Portugal, apossando-se o Governo dos seus domínios e valores materiais, além de retirarem enormes privilégios ao Clero.
O ministro Afonso Costa não gostava do Clero e chegou a mandar a polícia prender os padres que fossem encontrados na rua “a fim de evitar abusos”, dizia ele.
Em decreto de 18 de Outubro de 1910, foram abolidos o juramento religioso nos actos civis e o ensino da doutrina cristã. Foi promulgada a lei do divórcio e instituído o casamento civil. Os dias santificados, com excepção dos domingos, foram abolidos, passando a ser considerados dias de trabalho.
Foram extintas as Faculdades de Teologia e Direito Canónico na Universidade de Coimbra. As associações religiosas foram reguladas, proibindo o exercício do ensino e o uso público dos hábitos talares aos seus membros.
Em 1911, a 20 de Abril, foi decidida, por decreto, a Lei de Separação da Igreja e do Estado.
Foi em terrível golpe infringido nos privilégios da Igreja. O Cardeal Mendes Belo, de Lisboa, e alguns Bispos, foram exilados para outras regiões. O padre Óscar Aguiar, de Recardães; o padre Marques Castilho, do Sardão; o padre José Bernardino, de Ois da Ribeira; o padre Abel, de Fermentelos, o padre Abel de Oiã, e muitos outros da nossa e outras regiões do país, foram abrangidos por estas medidas e não gostaram, pelo que manifestaram essa discordância, chegando alguns a serem acusados de dinamitar pontes e comboios, com bombas, segundo ouvi contar em surdina.
O que eu vi, sem ser por ler, ou por ouvir, foi uma enorme caixa, daquelas que serviam para guardar milho, muito milho, na moradia onde hoje se localiza a sede e a Casa Museu do Cancioneiro de Águeda. Esta, era uma casa onde eu era bem estimado e que aprendi a frequentar desde bebé de colo. A proprietária, a Dona Rita Pereira, a Ritinha, mãe do dr. Serafim Soares da Graça, do José da Graça Almiro, da minha madrinha Conceição Vasconcelos, de dona Celeste Canelhas (mãe do General José Luís e do Arquitecto Armando) e da Maria da Graça, era a zeladora de uma imagem religiosa, muito bonita, do tamanho de um adulto, que ela preservava na referida caixa, vazia de milho. Outras imagens eram entregues a outras ilustres senhoras da nossa freguesia, que se encarregavam, muitas vezes, de cuidar e de alindar os altares da Igreja.
A enorme caixa chamou a atenção e a curiosidade do menino traquinas que eu era naquela época, e um dia, consegui altura e força para levantar a tampa e espreitar o que lá estava escondido, ou guardado.
O que vi, deixou-me um pouco assustado e, de supetão, deixei cair a tampa da caixa. Lá no fundo estava uma imagem de um homem quase nu, que era, sem pecado, a imagem do Senhor Morto, que na Semana Santa, ou por essas alturas, era apresentada com religiosidade e respeito aos crentes católicos de Águeda, transportado num “esquife” levado aos ombros por vários sacerdotes da região.
Ora em 1910, o Governo decretara leis rigorosas e até violentas, contra as práticas religiosas, em público, e os padres tinham um certo horário e certas condições para poderem usar os seus hábitos talares fora do recinto da Igreja.
Aconteceu que a procissão do Senhor Morto com muito público a assistir, porque a Fé não se determina por decreto, atrasou-se no horário previsto, e, precisamente em frente à antiga Casa Camossa, começaram a soar as badaladas do relógio do sino da Igreja, que indicavam que os padres tinham que recolher de imediato para não serem punidos.
A solução, foi convidar pessoas que assistiam às cerimónias para transportarem o esquife com o Senhor Morto, enquanto os padres, pelas escadas e viela do adro ou dos padres, se refugiavam na Igreja.
E, assim, segundo a versão de D. Luciana Aguiar, felizmente ainda viva, o enterro do Senhor Cristo, foi um enterro não religioso, SEM PADRES, mas civil.
n SILVA PINTO

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